Para milhares de adolescentes em Portugal, a época de exames nacionais, entre junho e julho, não é apenas mais um momento de avaliação. É também um período de tensão, de pressão dentro e fora das salas de aula e de decisões que parecem comprometer o futuro. Para muitos alunos, os exames são muito mais do que testes. São o acesso a outra fase das suas vidas. E, simultaneamente, são percecionados como julgamentos.
O que está realmente em causa? E que impacto tem este período na saúde mental dos adolescentes?
Na minha prática clínica, março e abril são os meses em que começam a chegar à consulta os temas relacionados com os exames. Chegam em forma de medo: “eu sei a matéria, mas quando chegar ao exame, vou lembrar-me?”
Estamos perante a habitual ansiedade de desempenho, que se caracteriza por um medo excessivo de fracassar em atividades específicas, nomeadamente apresentações, competições desportivas e avaliações escolares. O psicólogo educacional britânico David Putwain tem estudado amplamente a ansiedade face aos exames, ou “test anxiety”, e define-a como a tendência para interpretar situações de avaliação como ameaçadoras, dando origem a respostas emocionais (medo e insegurança), cognitivas (pensamentos intrusivos e ruminantes, “não sou capaz”, “vou falhar”), comportamentais (evitamento e procrastinação) e fisiológicas (dores de estômago, vómitos, enxaquecas, taquicardia e transpiração).
Não é apenas uma questão de nervosismo ocasional. Estimativas da literatura referem que 10% a 30% dos adolescentes, em contexto de avaliação, apresentam níveis elevados de ansiedade, que comprometem o desempenho e bem-estar. E que esta ansiedade não se baseia apenas na dificuldade da prova, mas na interpretação que o adolescente faz da situação, o que significa que dois alunos com o mesmo nível de preparação podem passar por experiências totalmente diferentes.
Por outro lado, o bloqueio cognitivo, associado ao conceito de “cognitive interference”, dá origem a pensamentos negativos que ocupam a memória de trabalho e diminuem a capacidade de recuperar informação – quem não conhece a expressão “deu-me uma branca”? Ou, como ouvi recentemente em consulta num adolescente que frequenta o 12º ano, “eu preparo tudo para estudar e depois não consigo começar, parece que me perco”.
Elevados níveis de ansiedade estão frequentemente associados a pior desempenho académico, não por falta de estudo, mas pela dificuldade de aceder ao conhecimento. Ou seja, não se trata de o aluno não saber, mas de não conseguir aceder ao conhecimento sob pressão.
Fatores como expetativas parentais elevadas, pressão escolar, comparação social e experiências anteriores negativas causam também uma sobrecarga invisível. Segundo Suniya Luthar, psicóloga clínica e do desenvolvimento e investigadora na área da vulnerabilidade e resiliência, os adolescentes de alto desempenho, que apesar de obterem boas notas desenvolvem elevados níveis de stress, são um grupo particularmente vulnerável devido à pressão associada ao contexto.
“A minha filha é ótima aluna e muito exigente com os resultados. Além de estudar, tem aulas de dança quatro vezes por semana, tem muito pouco tempo livre, mas organiza-se bem e se às vezes tem notas abaixo de 18 chora e fica angustiada e por mais que eu lhe diga que não lhe exijo essas notas, fica muito frustrada.” (Ana, nome fictício, mãe de uma adolescente que frequenta o 11º ano).
Quando o sistema de acesso ao ensino superior depende de médias altas e de exames nacionais, o erro não é visto como parte da aprendizagem, mas como uma ameaça. E é aqui que o resultado começa a ser associado à identidade. Para Carol Dweck, autora de Mindset: The new psychology of success (2006), os adolescentes com mentalidade fixa (crença de que capacidades como a inteligência são estáticas e não mudam significativamente) atribuem o desempenho ao seu valor pessoal. Ou seja, boas notas são um reflexo de ser inteligente e más notas são associadas a falta de inteligência.
Esta perceção dos resultados aumenta os níveis de ansiedade e o significado existencial atribuído às notas torna-se um problema maior do que o próprio exame. “Se não entrar neste curso ou nesta faculdade, sou um fracasso” ou “se não tiver esta nota, os meus pais ficam desiludidos comigo” são comentários que frequentemente oiço em consulta.
Paralelamente, a ideia recorrente de que bons resultados conduzem à entrada na faculdade e, consecutivamente, a uma carreira de sucesso, associa esta etapa a um percurso linear, quando a realidade é bem mais complexa. Esta narrativa diminui a multiplicidade de percursos alternativos e intensifica o medo de não atingir objetivos ou de atrasar o projeto académico.
Como gerir a época de exames com melhor qualidade do estudo e menor dificuldade em regular a ansiedade?
- Estudo distribuído (“spacing effect”). Fazer sessões de estudo ao longo do tempo melhora a retenção da informação;
- Prática de recuperação. Recordar informações anteriormente aprendidas estimula a memória e a compreensão, reforçando a memória a longo prazo;
- Informação intercalada. Estudar matérias diferentes, alternadamente, em vez de blocos de uma única disciplina aumenta a motivação;
- Intervalos regulares. Estudar por períodos de duas a quatro horas, seguidos de intervalos de quinze minutos diminui a sensação de sobrecarga e mantém o foco;
- Rotinas consistentes. Horários de estudo programados ajudam a reduzir a incerteza e a aumentar a capacidade de organização;
- Autoeficácia. Crenças positivas sobre as próprias capacidades diminuem o pensamento catastrófico;
- Técnicas fisiológicas. Respiração diafragmática, relaxamento muscular, exercício físico, sono regular;
- Técnicas de “grounding”. Utilizar os cinco sentidos e a respiração para interromper um ciclo de pensamentos negativos e ruminantes e restaurar o sistema nervoso.
Sendo a época de exames inevitável, importa que a pressão e a tensão causadas por estas avaliações não causem demasiado sofrimento. O evitamento emocional também chega à minha consulta, “Quando falam de exames, mudo de assunto”. Valorizar o esforço e não apenas o resultado, redefinir os significados de desempenho e de exigência e recordar que uma nota não julga um adolescente, podem ser fatores essenciais para aumentar a confiança e a segurança emocional de quem quer, mais do que ninguém, atingir bons resultados rumo ao futuro.
Maria Farinha é psicóloga clínica. Desenvolve atividade com adolescentes e adultos e tem como área de diferenciação a violência nas relações, trabalhando também em perturbações do humor e do comportamento, competências de comunicação, intervenção na crise e luto. Integra a equipa de psicologia do Hospital Lusíadas Alfragide, é responsável pela consulta de psicologia para adolescentes na CPECLínicas de Oeiras e exerce em consultório privado.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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