Portugal continua a ter um dos verões escolares mais longos da Europa. Em muitos países, como a Alemanha ou o Reino Unido, as férias grandes duram entre seis e sete semanas. Por cá, são doze. É uma diferença significativa, que deve merecer a nossa reflexão.

Esta pausa prolongada levanta questões legítimas sobre o impacto na aprendizagem dos alunos e na organização das famílias. Vários estudos mostram que interrupções demasiado longas podem levar à perda de competências, sobretudo entre os mais novos. O regresso à escola, em setembro, implica quase sempre um período de readaptação e recuperação de conteúdos que poderia ser evitado com um calendário mais equilibrado.

O desafio não está nas férias em si, mas no modo como estão estruturadas. Crianças com acesso a atividades educativas, culturais e desportivas tendem a manter níveis de estímulo e desenvolvimento durante o verão. Outras, com menos recursos ou apoio familiar, passam semanas em casa sem acompanhamento, o que pode acentuar desigualdades logo no início do novo ano letivo.

Este modelo também coloca pressão sobre muitas famílias. Conciliar três meses de férias escolares com um regime laboral comum não é fácil, e frequentemente obriga a soluções improvisadas, nem sempre ideais para as crianças nem para os pais. Um calendário com pausas mais curtas ao longo do ano permitiria um planeamento familiar mais justo, menos exigente e mais compatível com o ritmo atual da sociedade.

A proposta não é reduzir o tempo total de descanso, mas distribuí-lo de forma mais equilibrada. Começar o ano letivo mais cedo, acabar mais tarde, introduzir pausas intermédias bem definidas e manter algum tempo de férias no verão são soluções que já funcionam noutros países. O modelo existe, não é novo, e merece ser discutido com seriedade.

Além disso, esta reorganização do calendário só fará sentido se vier acompanhada de uma valorização da escola como espaço de crescimento integral. A componente letiva deve articular-se com atividades culturais, desportivas e cívicas. Autarquias, IPSS e escolas podem desempenhar aqui um papel central, oferecendo programas que garantam oportunidades a todos os alunos, independentemente do contexto familiar.

Mais do que preencher tempo, importa garantir que nenhuma criança fica sem acompanhamento ou estímulo durante uma parte tão relevante do ano. É uma questão de coesão social, mas também de organização eficiente dos recursos públicos e comunitários.

Como bem escreveu o Miguel Herdade no passado, não se trata de retirar férias às crianças, mas de organizar melhor o tempo de todos. O que está em causa é encontrar um equilíbrio mais justo, adaptado à realidade do século XXI. A escola deve deixar de ser apenas um lugar de passagem. Tem de ser um pilar vivo da comunidade, também nos períodos entre aulas.