Desta vez, não se tratou de uma crise provocada pelo sistema financeiro, mas impactou fortemente o setor e veio mostrar que a transição e resiliência são cada vez mais críticas, tendentes à adoção, urgente, de modelos de risco e de decisão alinhados com os objetivos climáticos do Acordo de Paris, com a Agenda 2030 das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável e com a recente proposta para o Plano de Recuperação, apresentada pela Comissão Europeia no dia 27 de maio.

Esta proposta assenta num novo mecanismo de recuperação, o “Next Generation EU”, de €750 mil milhões, e numa revisão do programa de ações europeu para 2020, no sentido de priorizar aquelas que mais contribuem para a recuperação e resiliência europeias. O compromisso financeiro da Europa com a recuperação pós-Covid-19 é agora de € 1.85 biliões. As alavancas principais de oportunidades de novo emprego, de crescimento, de resiliência das sociedades e de equilíbrio ambiental, são o “Green Deal” europeu e o setor digital.

Estas medidas assentam em três pilares de investimento:

  1. Apoio aos Estados Membros;
  2. Pacote de incentivos ao investimento privado de revitalização, orientado para criar condições às empresas para um futuro mais verde, digital e resiliente;
  3. Medidas diretamente relacionadas com a crise, e.g. apoios a um novo programa de saúde, ao reforço da proteção civil, à investigação nas áreas da saúde, resiliência e transição verde e digital, à ajuda humanitária internacional e um alinhamento completo entre programas europeus e o enquadramento financeiro futuro.

A Europa tem feito um trabalho de liderança sobre as Finanças Sustentáveis. O “Green Deal” é agora, mais do que nunca, o instrumento europeu de recuperação (juntamente com o digital): estabelece como objetivo criar, em 2050, a primeira região multipaís, neutra em carbono. O setor financeiro irá desempenhar o seu papel no quadro do Plano de Ação da Comissão Europeia para o financiamento do crescimento sustentável.

A transição terá em conta níveis de carbono e uma economia mais circular, com objetivos e metas definidos cientificamente e aplicados, esperamos, através de um instrumento desenvolvido, próximo a ser aprovado, a Taxonomia europeia.

Esta Taxonomia permite alinhar a classificação do que é sustentável em termos científicos e disponibilizar a gestores e detentores de ativos uma base processual à certificação de empresas sustentáveis, produtos financeiros verdes, estímulos verdes e processos de transição verde.

A Comissão Europeia pretende que os fluxos financeiros sejam dirigidos a investimentos sustentáveis (infraestruturas e edifícios, economia circular com empregos locais, energias renováveis, especialmente no eólico, solar e hidrogénio, transportes e logística, etc.) para integrar definitivamente a sustentabilidade na gestão de risco e enfatizar a transparência e a visão de longo-prazo.

Juntamente com estas oportunidades para governos, empresas e setor financeiro, será certo, se aprovado, que, nos próximos anos, os Bancos da União Europeia venham a ter que incorporar na sua estratégia, na gestão de risco, nos reportes, nas análises de cenários e stress-tests, os riscos ESG (Environmental, Social e Governance). Estamos próximos.