Há uma palavra que se tornou omnipresente nas organizações: reskilling.
Está nos planos estratégicos, nas conferências, nos programas de formação e nos discursos sobre o futuro do trabalho. Afinal, perante a velocidade vertiginosa da transformação tecnológica e da Inteligência Artificial, parece evidente que precisamos de ajudar as pessoas a adquirir novas competências.
Talvez seja importante, perante a vertigem da velocidade, parar. Pensar. Enquadrar.
Talvez estejamos tão focados em desenvolver competências que nos esquecemos de responder a uma questão anterior e essencial: para quê?
Assistimos ao debate sobre o futuro do trabalho centrado nos empregos. Que profissões vão desaparecer? Que funções vão surgir? Que competências serão necessárias?
São perguntas relevantes. Mas, cada vez mais, parecem insuficientes.
A Inteligência Artificial não está simplesmente a substituir profissões. Está a transformar o trabalho tarefa a tarefa, decisão a decisão, interação a interação. Uma função é, na realidade, uma combinação de atividades, responsabilidades, conhecimento, relações e capacidade de julgamento. E cada um destes elementos está a ser afetado de forma diferente.
Por isso, o verdadeiro desafio pode não ser perceber que empregos vão deixar de existir, mas compreender que partes do trabalho continuam a criar valor e quais precisam de ser redefinidas.
É aqui que surge aquilo considero ser a verdadeira emergência do reskilling.
Não estamos apenas perante uma escassez de competências. Estamos perante uma crise de desenho do trabalho.
Em muitas organizações, a sequência é previsível: adquire-se tecnologia, desenvolve-se formação e espera-se um aumento da produtividade. Mas há uma decisão crítica que muitas vezes fica por tomar. Como deve o trabalho ser realizado daqui para a frente?
Sem responder a esta pergunta, corremos o risco de formar pessoas para funções que já estão a mudar.
É um paradoxo interessante. Investimos milhões em programas de aprendizagem para preparar colaboradores para um futuro que ainda não definimos com clareza.
Talvez por isso muitos programas de reskilling produzam resultados abaixo das expectativas. Não porque a formação seja inadequada, mas porque está a responder à pergunta errada.
O ponto de partida não deveria ser “Que competências precisamos de desenvolver?”.
Deveria ser “Que trabalho queremos que exista?”.
Só depois faz sentido discutir competências.
A transformação do trabalho exige novas escolhas. Algumas tarefas deixarão simplesmente de fazer sentido. Outras serão automatizadas. Muitas serão realizadas em colaboração entre humanos e Inteligência Artificial. E há ainda aquelas que se tornarão mais humanas precisamente porque a tecnologia existe.
Esta é uma das ideias mais importantes que os líderes precisam de compreender.
A tecnologia não nos obriga apenas a decidir o que automatizar. Obriga-nos a decidir o que queremos humanizar.
Quando a tecnologia assume atividades repetitivas, previsíveis ou transacionais, abre-se espaço para reforçar aquilo que continua a ser distintamente humano: o pensamento crítico, a criatividade, a empatia, a construção de confiança, a capacidade de mobilizar pessoas em torno de um propósito.
O futuro do trabalho não será uma escolha entre humanos e máquinas. Será uma escolha sobre como combinar o melhor de ambos.
Nesse contexto, o reskilling deixa de ser um conjunto de cursos e passa a ser uma capacidade organizacional permanente. Uma capacidade de aprender, desaprender e reaprender à medida que o trabalho evolui.
As organizações que terão mais sucesso não serão necessariamente aquelas que investirem mais em tecnologia. Serão aquelas que conseguirem alinhar tecnologia, desenho organizacional, liderança e desenvolvimento de competências numa visão coerente do futuro.
Porque o verdadeiro objetivo do reskilling não é acumular novas competências.
É garantir que as pessoas continuam relevantes.
E essa relevância não se protege olhando para o passado nem reproduzindo modelos de trabalho existentes. Constrói-se redesenhando, de forma intencional, o trabalho que queremos criar.
A Inteligência Artificial vai transformar o trabalho, quer estejamos preparados ou não.
A questão é saber se vamos permitir que essa transformação aconteça por acaso ou se teremos a coragem de a liderar com intenção.
No final, o reskilling não é o destino.
É apenas o caminho.
E talvez tenha chegado o momento de discutirmos com mais clareza para onde queremos ir.