Creio não exagerar ao afirmar que todos os arquitectos paisagistas, perante situações de calamidade resultantes de fenómenos naturais, se confrontam com dois sentimentos aparentemente contrastantes, mas complementares: pesar e constrangimento.
Pesar, naturalmente, pela perda de vidas humanas ou do trabalho de uma vida. Constrangimento porque surgem, quase inevitavelmente, dois anglicismos — apenas por serem particularmente certeiros —: “told you so” e “what else is new?”.
A arquitectura paisagista surge em Portugal nos anos 40 do século passado, dedicada ao planeamento, projecto, gestão e conservação de paisagens e espaços exteriores, integrando conhecimentos das ciências naturais, sociais e das artes. O seu objectivo primordial é organizar o território de acordo com a sua aptidão, de forma funcional, estética e sustentável, articulando sistemas ecológicos, culturais e urbanos.
Enquanto campo de estudo, envolve a análise do solo, da vegetação, da hidrologia e do clima, bem como a compreensão das dinâmicas sociais e culturais associadas ao uso do espaço. Procura, acima de tudo, promover o equilíbrio entre o Homem e os processos naturais, contribuindo para a qualidade ambiental, a valorização do património paisagístico e o bem-estar das comunidades.
De forma simplificada, o arquitecto paisagista sobrepõe e sintetiza toda esta informação, “desenhando” sobre o território. É, além disso, uma área de saber que sempre se caracterizou por estar à frente do seu tempo.
Paisagem, ecologia, ambiente, sustentabilidade, resiliência, ordenamento, aptidão, leitos de cheia, ilhas de calor, hortas urbanas, corredores verdes — conceitos aparentemente muito actuais — são, na verdade, familiares à arquitectura paisagista desde a sua génese.
Gerações de arquitectos paisagistas coordenaram ou participaram nos primórdios da legislação e do ordenamento do território, na definição de usos de acordo com a aptidão do solo, na salvaguarda de processos naturais, em estudos de impacto ambiental e na identificação de condicionantes e áreas de risco.
Sei bem que, muitas vezes, somos vistos como aqueles que “estragam a festa”. Somos nós que dizemos que nem sempre se pode construir uma casa numa arriba com vista privilegiada, num recanto idílico no meio de uma serra ou na margem de um rio. E é nestes momentos que se confirma, da pior forma, que o risco não compensa.
Isto implica, frequentemente, a imposição de limites à ocupação do território em áreas ambientalmente sensíveis ou sujeitas a riscos naturais. A resistência social e política a estas restrições tem sido recorrente; contudo, a repetição de eventos extremos evidencia os custos elevados de decisões territoriais desajustadas.
É aqui que o “told you so” surge, mesmo involuntariamente. Ouvir agora técnicos e responsáveis políticos surpreendidos com os efeitos devastadores destes fenómenos climatéricos é, no mínimo, constrangedor — sobretudo quando anunciam, com urgência, a necessidade de estudos para mitigar situações futuras.
Receio que só tenha sido apanhado de surpresa quem desconhece o território que pisa ou nunca ouviu — ou não quis ouvir — o que a arquitectura paisagista defende. “What else is new?” para uma profissão à qual sucessivos governos nem sequer deram a possibilidade de constituir uma Ordem profissional.
Existe história, massa crítica, investigação, publicações e uma vastidão de estudos e cartografia detalhada, repleta de informação sobre condicionantes e zonas de risco.
Os arquitectos paisagistas procuram contribuir para uma construção mais consciente do território, defendendo uma visão em que o desenvolvimento humano não se faz à revelia dos sistemas naturais, mas em diálogo com eles. O reconhecimento desse esforço não é apenas uma questão corporativa; é, antes de mais, uma condição para pensar o futuro colectivo de forma mais lúcida, informada e responsável
Um país estruturalmente pobre como o nosso não se pode dar ao luxo de persistir em decisões territoriais erradas, sobretudo perante fenómenos cada vez mais extremos, consequência das alterações climáticas. Muito se evoluiu, é certo, mas ainda há um longo caminho a percorrer
Os arquitectos paisagistas estão cá, há mais de 80 anos, a tentar fazer a sua parte.