Os incêndios recentes mostram, mais uma vez, que Portugal continua preso a uma lógica de reação. Não falta coragem no combate, falta estratégia na prevenção, e essa responsabilidade começa nas autarquias, passa pelo Governo e chega à União Europeia.
Voltamos a ter imagens que já conhecemos demasiado bem: chamas a consumir milhares de hectares, populações em sobressalto, bombeiros a trabalhar até à exaustão e políticos a prestarem declarações no calor do momento. Mas, no meio deste ciclo repetitivo, há algo que raramente muda: a narrativa oficial insiste em medir a eficácia na capacidade de resposta e no número de meios no terreno.
O problema é que o verdadeiro combate aos incêndios não se faz no verão, faz-se no inverno. Não está nas mangueiras, está na prevenção.
E aqui entramos naquilo que muitos preferem não dizer: prevenir não dá votos. Limpar matas, criar faixas de gestão de combustível, reordenar o território e investir em campanhas sérias de sensibilização é um trabalho invisível, pouco mediático e cujos resultados só se veem anos mais tarde. É muito mais fácil aparecer nas televisões rodeado de bombeiros do que apresentar um plano de prevenção robusto e cumprir as metas de execução.
As autarquias, muitas vezes, limitam-se a aplicar multas simbólicas ou a fazer operações pontuais antes de uma visita ministerial. Os Governos anteriores e o atual Governo central continuam a anunciar planos ambiciosos, mas a execução arrasta-se entre burocracia e falta de verbas. A União Europeia, por sua vez, financia milhões de euros em programas de prevenção e adaptação climática, mas a eficácia desses fundos perde-se na teia de candidaturas complexas, estudos infindáveis e obras que nunca chegam ao terreno.
O resultado está à vista: cada verão repetimos a mesma tragédia. E se as alterações climáticas aumentam o risco, a inércia política multiplica as consequências. Portugal continua a viver numa cultura de reação, quando aquilo que precisamos é de uma cultura de prevenção.
Enquanto não houver coragem política para assumir que a verdadeira vitória contra os incêndios se ganha antes da primeira faísca, continuaremos condenados a este ciclo. E, nesse jogo perigoso, as autarquias, o Governo e até a UE têm responsabilidades que não podem ser apagadas — mesmo com a água de todos os aviões do mundo