Durante anos ouvimos repetidamente que o PSD precisava de se afastar de Pedro Passos Coelho. Que o antigo primeiro-ministro representava um passado que deveria ser ultrapassado. Que as suas ideias eram demasiado liberais para o contexto português. Que a sua visão reformista não tinha espaço numa sociedade habituada à dependência do Estado e ao conforto do imobilismo. No entanto, os acontecimentos políticos dos últimos meses mostram precisamente o contrário: o PSD está, gradualmente, a regressar a muitas das posições que Passos Coelho defendeu quando liderou o partido e o Governo.

A verdade é que a realidade tem uma forma curiosa de validar ideias que, em determinado momento, pareciam politicamente inconvenientes.
Durante o período da troïka, Passos Coelho assumiu decisões difíceis que poucos estariam dispostos a assumir. Fê-lo num contexto de emergência nacional, quando Portugal estava à beira da bancarrota e dependente de assistência financeira externa para garantir o funcionamento do Estado.
Naturalmente, muitas dessas medidas foram impopulares. Algumas poderão ser discutidas e avaliadas à luz do tempo. Mas existe uma diferença entre discordar de determinadas opções e negar a coerência da estratégia que as sustentava.

Passos Coelho defendia um Estado mais eficiente, uma economia mais competitiva, uma redução da dependência estrutural da despesa pública e uma cultura de responsabilidade individual e coletiva. Defendia reformas estruturais em vez de soluções de curto prazo. Defendia que Portugal precisava de produzir mais riqueza antes de a distribuir.
Durante anos, estas ideias foram apresentadas pelos adversários políticos como radicais ou excessivamente liberais. Curiosamente, muitas delas são hoje retomadas pelo próprio PSD como respostas necessárias aos desafios que o país enfrenta.

Quando se fala da necessidade de reformar a Administração Pública, de simplificar o Estado, de reduzir a carga burocrática sobre as empresas, de atrair investimento, de valorizar o mérito ou de aumentar a competitividade da economia portuguesa, estamos perante conceitos que fizeram parte do discurso político de Passos Coelho muito antes de se tornarem consensuais.

A liderança de Luís Montenegro tem procurado construir uma alternativa governativa assente na moderação e na estabilidade. É uma estratégia legítima e compreensível. Mas é igualmente evidente que muitas das linhas orientadoras que hoje estruturam a ação política do PSD encontram raízes profundas na visão reformista que Passos Coelho procurou implementar.

Talvez por isso se explique um fenómeno interessante: quanto mais tempo passa, mais a figura de Pedro Passos Coelho parece ganhar relevância histórica. A distância temporal permite separar o ruído político da substância das decisões. Permite distinguir as circunstâncias extraordinárias da crise das ideias de fundo que orientavam a governação.
E é precisamente nessa análise mais serena que emerge uma conclusão inevitável: muitas das críticas dirigidas ao antigo primeiro-ministro envelheceram mal.

Portugal continua confrontado com problemas de produtividade, crescimento económico, dependência do Estado, excesso de burocracia e incapacidade para reter talento. São problemas que Passos Coelho identificava há mais de uma década e para os quais defendia reformas profundas.

O PSD percebe hoje que não basta gerir o país. É necessário transformá-lo. E quando o partido procura respostas para esse desafio, acaba inevitavelmente por regressar a várias das ideias que marcaram a liderança de Pedro Passos Coelho. Talvez nunca o admita de forma explícita. Mas os factos são difíceis de ignorar. Depois de anos a tentar afastar-se do seu antigo líder, o PSD parece finalmente ter percebido que algumas das suas melhores respostas para o futuro estavam, afinal, nas propostas que Pedro Passos Coelho apresentou muito antes do seu tempo.

O PSD afinal ouve Pedro Passos Coelho. Ainda que o faça discretamente.