IA (Inteligência Artificial) tornou-se uma tecnologia incontornável, assim coloca-se a pergunta: Como preparar as crianças para um futuro onde a tecnologia é omnipresente? Como devemos moldar os currículos de Ciências da Computação e outras disciplinas para preparamos as gerações futuras, e a nós próprios?
Ensinar programação e competências digitais é fundamental, mas a verdadeira questão é se estamos a equipar os jovens com as ferramentas críticas e éticas necessárias para navegar num mundo dominado por IA.
Pensamento Crítico como um passo para a Ética
No mundo onde vivemos a desinformação é abundante, tornando o pensamento crítico uma habilidade essencial. As crianças precisam de aprender a questionar, analisar fontes e tomar decisões fundamentadas, não para propagar o ceticismo, mas para se tornarem cidadãos ponderados e capazes de discernir a verdade. A tecnologia reflete os valores de quem a cria, por isso é importante ensinar a responsabilidade no uso e na criação de tecnologia. Uma educação ética, guiada pelo pensamento crítico, é fundamental para que as novas gerações compreendam o impacto de suas inovações na sociedade.
Os Benefícios de Compreender a Nossa Relação e Reações à IA
Se utilizarmos IA sabendo o que é, tem um enorme potencial para melhorar as nossas vidas; vai não só alterar profundamente a sociedade como o nosso potencial individual. Por um lado é percepcionada como facilitador de tarefas rotineiras, resolvendo-as de forma autónoma, por outro como um instrumento que nos multiplica, capaz de processar e passar conhecimento, um companheiro criativo e com capacidades de imitar o emocional.
Vivemos momentos quase inexplicáveis, entre admiração, inspiração e medo do desconhecido, devemos equipar os nossos alunos e explorar a relação entre o humano e o digital.
Podemos começar por avaliar alguns efeitos desta relação com IA nos efeitos que observamos em nós próprios. Vânia Baldi explora alguns destes efeitos em “Entre Inconsistência Virtual e Machina Sapiens,” Aponta assim 3 efeitos observáveis, quase antropológicos: ‘’(…) o viés automatizado (automation bias) – isto é a predisposição de utilizadores a aceitarem sugestões de sistemas de IA; a complacência automatizada (automation complacency) ou seja, a gratificação espontânea com os resultados produzidos com IA, possivelmente levando a uma fraca vigilância (…); e a aversão algorítmica (algorithmic aversion) a inclinação para não aceitar as sugestões da IA.’’
Será útil utilizar a consciência e o discernimento destes efeitos para moldar os objetivos pedagógicos sobre estas matérias.
O que ensinar na sala de aula?
Ciências da Computação — disciplina integrada nos currículos de países como o Reino Unido e Israel desde 2014 — torna-se agora ainda mais relevante com o avanço da IA. A IA pode ampliar o conhecimento, mas nunca substituirá o entendimento profundo e as capacidades adquiridas ao aprender a programar.
Como sublinha a Computer Science Teachers Association (CSTA) no seu guia “Teach AI”: “Programar é mais do que produzir código; é um exercício que incentiva a criatividade, o pensamento crítico e a colaboração.”
Criatividade, pensamento crítico e colaboração são precisamente algumas das valências necessárias para trabalhar com IA de forma saudável no plano individual e da sociedade, no acto de consumo e da criação.
Cada uma destas competências potencia a nossa interação com IA: a Criatividade permite criar e adaptar ideias, essencial para trabalhar com IA; o Pensamento Crítico serve de filtro para decisões éticas e fundamentadas e por fim a capacidade de Colaborar, ajuda no trabalho em conjunto enquanto aprimoramos soluções.
Humanizar a tecnologia: Conclusão
Como devemos moldar as Ciências da Computação e outras disciplinas para preparamos as gerações futuras, e a nós próprios ?
Como diz Mustafa Suleyman numa palestra de Abril 2014 – Afinal o que é AI? A AI não é mais do que o reflexo de tudo o que nós criámos e tudo o que evoluímos até agora. É tudo o que sabe, tudo o que ‘leu.’ E conclui ‘’À medida que desenvolvemos a IA, podemos e devemos refletir tudo o que há de bom, tudo o que amamos, tudo o que é especial na humanidade: a nossa empatia, a nossa bondade, a nossa curiosidade, a nossa criatividade. Isso apresenta o maior desafio do Século XXI”
É com esta inspiração que devemos criar planos de aula para os nosso jovens e futuros criadores.
O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.