Quando criei a minha primeira empresa, há dez anos, estava sobretudo focada em desenvolver uma boa oferta de serviços e conquistar clientes. Com o tempo, vieram outros desafios, como as questões financeiras, a gestão de pessoas e a liderança. Hoje percebo que, à medida que o negócio cresce, também nós temos de continuar a crescer e a aprender.

Ao longo destes anos, uma das maiores mudanças aconteceu na forma como passei a olhar para o crescimento. Quando comecei o meu percurso como empreendedora, acreditava que bastava fazermos bem o nosso trabalho. Hoje percebo que isso não chega. Porque o mercado evolui. A tecnologia evolui. Os clientes evoluem. E aquilo que nos trouxe até aqui dificilmente será suficiente para agarrar o que aí vem.

O próprio ecossistema também mudou. Acredito que construir um negócio é muito mais desafiante do que era há dez anos. Não porque existam menos oportunidades (provavelmente até existem mais), mas porque há mais concorrência, mais tecnologia e um contexto mais exigente. Isso obriga-nos a acompanhar a evolução e a adaptarmo-nos continuamente.

A Inteligência Artificial (IA) é provavelmente um dos exemplos mais claros dessa mudança. Perante as novas ferramentas que surgem todos os dias, acabamos por ter de fazer uma escolha: olhar para a IA como uma concorrente ou perceber de que forma ela pode complementar aquilo que fazemos. Eu prefiro a segunda opção.

Acredito que a tecnologia pode potenciar o talento humano, libertando tempo para aquilo que realmente faz a diferença. Não substitui a criatividade, o pensamento estratégico ou a capacidade de construir relações de confiança. Mas pode ajudar-nos a trabalhar melhor e a responder de forma mais eficaz às necessidades dos clientes. Estou cada vez mais convencida de que esta combinação entre pessoas e tecnologia é o caminho.

A necessidade de adaptação também mudou a forma como olho para os processos. À medida que crescemos, existe uma tendência quase natural para acrescentar mais estrutura e mais momentos de alinhamento. É fácil sentir que essa é a forma certa de profissionalizar o negócio. Eu própria senti essa pressão. Hoje procuro olhar para cada processo através da sua taxa de esforço. Se o esforço necessário para o manter deixar de compensar o valor que cria, então faz sentido questioná-lo. Porque profissionalizar uma empresa não passa, necessariamente, por acrescentar mais camadas de complexidade.

Há pouco tempo, durante uma conversa sobre um setor diferente do meu, surgiu uma ideia que ficou comigo: o facto de existirem empresas muito grandes pode criar espaço para outras, mais pequenas e mais especializadas. Nem todos os negócios têm de crescer da mesma forma. Talvez o verdadeiro crescimento passe por perceber onde conseguimos criar mais valor e assumir esse posicionamento. Em vez de tentarmos fazer tudo para todos, talvez faça mais sentido sermos a melhor escolha para quem realmente valoriza aquilo que fazemos.

Tudo isto também mudou a forma como hoje encaro a liderança. Continuo a acreditar na importância de ouvir a equipa, de considerar diferentes perspetivas e de estar disponível para mudar de opinião. Mas também percebi que a responsabilidade da decisão final continua a ser de quem lidera e não pode ser delegada. E liderar implica ter a capacidade de reconhecer quando faz sentido mudar de rumo, mesmo que isso signifique voltar atrás com decisões anteriores.

Se hoje olho para o meu negócio de forma diferente, isso deve-se, acima de tudo, às decisões, aos erros e às aprendizagens destes últimos dez anos. Espero que daqui a outros dez volte a pensar de forma diferente. Porque, se isso acontecer, será um bom sinal. Significará que continuei a aprender pelo caminho.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.