Em entrevista ao Observador, Neil Lawrence questiona a aura de excepcionalidade da Inteligência Artificial (IA), argumentando que ela será moldada pelas mesmas forças políticas e económicas que guiaram inovações passadas. Há verdade nisso, mas apenas parcial: a história mostra que tecnologias como a eletricidade ou a internet foram absorvidas pelas estruturas de poder existentes. Mas Lawrence subestima o potencial disruptivo da IA, especialmente quando combinada com blockchain e moedas digitais programáveis, como o Euro Digital, previsto para outubro de 2025.

Ao contrário das ferramentas tecnológicas anteriores, a IA caracteriza-se pela sua capacidade única de autoaprendizagem e interação autónoma, redefinindo mercados e até mesmo o próprio conceito de dinheiro. Embora Lawrence rejeite corretamente o determinismo apocalíptico de uma IA do tipo “Skynet”, retratado em filmes como o “Exterminador Implacável”, ele ignora riscos como as moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs). O exemplo do Yuan Digital chinês mostra bem como a combinação da IA com tais moedas programáveis aumenta drasticamente a vigilância financeira e o controlo social, exigindo-se urgente debate ético na Europa sobre um dinheiro programável cuja utilização pode ser condicionada politicamente e afetar a carteira digital de cada cidadão (Rodrigues, 2021, p. 127).

Por outro lado, a convergência da IA com a blockchain oferece uma oportunidade para um “toque de Midas” ético (Rodrigues, 2021a, p. 91): um dinheiro digital programável que integre valores éticos além do lucro financeiro. Há mais de cinquenta anos, Friedrich Hayek, Nobel da Economia em 1976, já defendia a emissão livre e concorrencial de moedas (Hayek, 1976), mas hoje a blockchain concretiza este ideal ao viabilizar sistemas monetários seguros e transparentes emitidos pela própria sociedade civil. As moedas digitais programáveis significam o fim do dinheiro amoral, e se forem descentralizadas, poderão dotar o mercado de uma “mão visível” que aponte uma “terceira via” ética para superar tanto o capitalismo selvagem como o coletivismo utópico.

Lawrence acerta ao criticar a excessiva concentração de poder económico nas grandes tecnológicas e regulamentações mal concebidas como o “AI Act” europeu, que enfraquecem a regulação democrática e limitam a inovação legítima. No entanto, falta-lhe explorar a importância da descentralização digital como contrapeso essencial a estes riscos. Esta necessidade é destacada pela ordem executiva assinada por Trump nos EUA, a 23 de janeiro de 2025, proibindo a implementação das CBDCs para proteger a autonomia individual e limitar o poder digital do Estado.

A experiência relatada por Lawrence, em que o investidor Marc Andreessen decidiu apoiar Trump após perceber que a administração Biden iria conceder privilégios monopolistas às grandes multinacionais tecnológicas no desenvolvimento da IA, ilustra claramente este receio. Lawrence denuncia com razão os perigos da manipulação das narrativas alarmistas sobre a IA por grandes grupos económicos. Porém, não menciona o papel fundamental da descentralização digital como forma de resistir a estas narrativas e criar um maior equilíbrio político-social. O diagnóstico dele está bem feito, mas falta-lhe explicar como proteger a democracia dos novos sistemas digitais centralizados.

Há mais de uma década, alertei para a necessidade de um “engenheiro informático ético” (Rodrigues, 2012), um especialista figurativo atento ao impacto social da tecnologia — conceito que ecoa os “engenheiros sociais fragmentados” de Karl Popper, citados por Lawrence na sua entrevista. Estas figuras simbolizam a necessidade de uma IA e um dinheiro digital guiados por princípios democráticos e descentralizados, sendo essa a chave para uma sociedade mais justa e sustentável (Rodrigues, 2021b, p. 30). A IA e o Euro Digital não são apenas evoluções tecnológicas, pois determinam uma mudança civilizacional. Ignorar esse papel transformador é um erro tão grave quanto temê-las cegamente. Afinal, há que decidir quem programará esses poderosos sistemas — e com quais valores.

Referências:
Hayek, F. (1976). Denationalization of money. Institute of Economic Affairs.
Rodrigues, D. (2012). Cyberethics of Business Social Networking. In M. Cruz-Cunha, P. Gonçalves, N. Lopes, E. Miranda, & G. Putnik (Eds.), Handbook of Research on Business Social Networking: Organizational, Managerial, and Technological Dimensions (pp. 314-338). IGI Global Scientific Publishing.
Rodrigues, D. & Lopes, P. (2021). Blockchanging Politics: Opening a Trustworthy but Hazardous Reforming Era. In D. Rodrigues (Ed.), Political and Economic Implications of Blockchain Technology in Business and Healthcare (pp. 118-159). IGI Global Scientific Publishing.
Rodrigues, D. D. (2021a). Blockchanging Money: Reengineering the Free World Incentive System. In D. Rodrigues (Ed.), Political and Economic Implications of Blockchain Technology in Business and Healthcare (pp. 69-117). IGI Global Scientific Publishing.
Rodrigues, D. (2021b). Blockchanging Trust: Ethical Metamorphosis in Business and Healthcare. In D. Rodrigues (Ed.), Political and Economic Implications of Blockchain Technology in Business and Healthcare (pp. 1-41). IGI Global Scientific Publishing.