Atualmente, a Europa encontra-se num momento decisivo da sua história, não só porque a guerra regressou com a Ucrânia a ser invadida pela Federação Russa em 2022, mas também porque a ordem mundial liberal está em declínio com a União Europeia a não acompanhar os tempos com a revolução tecnológica e a perda de competitividade económica face às restantes economias no panorama internacional. É o tempo da Europa reorganizar, e a UE definir um rumo que seja mais pragmático e menos declarativo. Um rumo onde a UE caminhe para um plano de autonomia estratégica em três setores-chave: Defesa, Inteligência Artificial e Economia. A UE necessita de um rumo para poder adaptar-se à nova ordem mundial que já não será tão liberal e previsível como antes.
A invasão russa à Ucrânia foi um choque diplomático e estratégico para os países europeus. Foi a demonstração perfeita que a paz não é um bem adquirido e que a dependência face à Rússia, em diversas matérias (energia e indústria) teve custos muito elevados, mas principalmente para os países de Leste e a Alemanha. A NATO voltou a ter um papel mais interventivo sobre a segurança europeia, mas a realidade expõe um ponto muito relevante, é que a Europa precisa mais da NATO que os Estados Unidos. Isto explica as imposições do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, relativamente ao investimento em Defesa que deve ser 5% por cada Estado-membro da Aliança Atlântica. Além disso, a Europa perdeu o seu poderio industrial para a China, não só na construção de automóveis e bens essenciais (máscaras e entre outros produtos).
É aqui que a UE tem de se reinventar e traçar um rumo para a sua autonomia estratégica em três setores importantes: Defesa, Inteligência Artificial e Economia.
A Defesa deve ser entendida como uma oportunidade económica para os países europeus poderem recapitalizar as suas indústrias, como também reforçar o poder de dissuasão em matérias de armamento, indústria de defesa e segurança face aos desafios do sistema internacional. Aliás, é urgente aumentar o investimento em Defesa com uma maior eficiência no fabrico de drones, desenvolvimento de tecnologias avançadas e capacidade militar porque um rumo apenas declarativo e não pragmático sobre o setor da Defesa, é tardar uma decisão cirúrgica para a segurança europeia. Em 2024, os 27 países da UE gastaram cerca de 343 mil milhões de euros em Defesa, equivalente a 1,9% do PIB, existindo uma previsão de investirem cerca de 381 mil milhões de euros em 2025. Contudo, a Europa continua atrás do investimento norte-americano em matéria de defesa.
Já, a Inteligência Artificial vai ser um setor crucial para a UE poder mostrar o seu capital humano na inovação e na regulação da IA. Enquanto os EUA lideram na inovação e a China no desenvolvimento em larga escala, a UE pode destacar-se pela regulação e desenvolvimento da inovação tecnológica com IA. É necessário um investimento na indústria e na área científica para a UE poder se destacar na regulação de dados, segurança digital e nas infraestruturas, podendo a Europa estar à frente dos outros competidores em matéria de IA, tanto na regulação como na inovação tecnológica nas plataformas digitais.
Por último, o setor da Economia será o mais relevante face à perda de competitividade em relação à China e aos Estados Unidos. É notória a dependência energética e fragmentação do mercado de capitais que colocam as economias dos países europeus numa posição mais defensiva e limitadora. Exemplo disso, é a UE importar cerca de 98% dos painéis solares da China, como também a UE importar 80% em materiais energéticos da China para o uso de infraestruturas eólicas. Sem dúvida, a UE deve ser mais pragmática em relação à economia europeia, tendo um posicionamento mais claro sobre o acordo do Mercosul e a UE, e voltar a recapitalizar a indústria europeia em matérias de defesa, automóvel e no mercado comum europeu face aos desafios do panorama internacional.
It´s time, Europe! É tempo da Europa reinventar-se e definir um rumo que tenha um plano de autonomia estratégica nos três setores que já referi anteriormente, mas também fundamentar novamente o espírito europeísta e humanista na integração europeia. O modelo institucional da UE favorece decisões tardias e muitas das vezes, pouco eficazes face aos desafios do panorama internacional. É importante a Europa acompanhar os novos tempos porque uma Europa forte, é uma UE que continua a prosperar a liberdade e a democracia no continente europeu, mesmo que muitos tentem derrubar o europeísmo com demagogia e populismos. Se a Europa não define um rumo para onde todos nós caminharemos, arrisca-se a tornar-se num ator irrelevante no xadrez geopolítico, onde os EUA, a China e a Rússia dominarão com maior competitividade e rigidez a nova ordem mundial.