O Estádio Nacional do Jamor, palco de memórias gloriosas e inesquecíveis finais da Taça de Portugal, é um dos mais emblemáticos estádios do futebol português. Inaugurado em 1944, foi sonhado como um estádio ao estilo clássico europeu, inserido num vale verdejante, único na sua beleza natural e história desportiva. Porém, com o passar das décadas, o que outrora foi um símbolo de modernidade e orgulho nacional estagnou no tempo. E é neste contexto que surge a recente proposta de requalificação, apresentada pela Câmara Municipal de Oeiras, liderada por Isaltino Morais, com apoio das federações desportivas e do Instituto Português do Desporto e Juventude.

A intenção de intervir no Jamor é, sem dúvida, bem-vinda e necessária. Porém, a ambição do projeto fica muito aquém das expectativas criadas. O investimento previsto ronda os 25 milhões de euros, e contempla melhorias como uma pala parcial sobre a bancada central, um parque de estacionamento subterrâneo, substituição das casas de banho provisórias por instalações definitivas e algumas melhorias de acessibilidade. Tudo isto, embora meritório, revela uma visão limitada para aquilo que o Estádio Nacional poderia e deveria ser.

Num tempo em que os grandes estádios do mundo são infraestruturas multifuncionais, tecnologicamente avançadas, e sustentáveis, o projeto para o Jamor aparece como um simples remendo num tecido que já não aguenta mais costuras. A cobertura, por exemplo, é apenas parcial. O que impede a sua extensão integral? Fatores estruturais? Financeiros? Ou apenas falta de visão e coragem política para pensar maior? Em dias de chuva, metade do público continuará encharcado, desconfortável, num estádio sem proteção.

E que dizer da ausência de tecnologias modernas? Em pleno 2025, não se fala em ecrãs gigantes, conectividade digital, bancadas ergonómicas ou zonas VIP com experiências imersivas. Não se fala de painéis solares ou eficiência energética. Não se fala de criar um estádio capaz de acolher eventos internacionais. Parece que se pretende apenas manter a tradição viva, mas sem dar-lhe o fôlego de que necessita para perdurar no futuro.

A verdade é que o Jamor tinha todas as condições para se tornar um modelo de estádio do século XXI: um recinto com cobertura total, com acessibilidade universal, tecnologia de ponta, sustentabilidade ambiental, e um papel central num grande parque desportivo, cultural e natural. Um projeto estruturante para o país, que pudesse ser orgulhosamente mostrado ao mundo. A proximidade com Lisboa, a envolvente natural, a história desportiva do local, tudo apontava nesse sentido.

Por que razão então se opta por uma solução tímida? A resposta, possivelmente, passa por um conjunto de fatores: a habitual gestão de recursos escassos, a falta de ambição estrutural, e uma cultura política que raramente planeia para lá de um mandato. O Jamor não precisa apenas de uma requalificação funcional. Precisa de uma visão inspiradora. Precisa de ser reinventado como um ponto de encontro entre passado, presente e futuro.

E, no entanto, há bons exemplos a seguir. O Parque Olímpico de Londres, após os Jogos de 2012, tornou-se um polo de dinamismo urbano e social. O Estádio do Dragão, em Portugal, é um exemplo de modernidade e sustentabilidade. Por que não fazer do Jamor um case study europeu? Uma referência internacional?

O povo português, apaixonado pelo futebol, merecia mais. O futebol português, com clubes que brilham na Europa e jogadores de classe mundial, merecia mais. E, acima de tudo, a história do próprio Jamor, testemunha de tantos momentos sublimes, merecia um palco à altura da sua memória. Se hoje, no dia da final da Taça de Portugal, celebramos a emoção de mais uma conquista, não podemos ignorar a necessidade urgente de preparar este espaço para o futuro.

O Jamor não pode continuar a viver apenas de saudade. Há que reimaginar o que significa ser o “Estádio Nacional”. Há que debater, exigir e sonhar mais alto. Porque Portugal pode. Porque o Jamor merece.

E porque, um dia, Lisboa poderá sonhar em ser palco de uns Jogos Olímpicos. Será possível sem uma infraestrutura digna, moderna e versátil? O Jamor, com a sua localização estratégica, poderia ser uma peça-chave numa candidatura séria aos Jogos. Mas para isso é necessário mais do que pequenas obras de manutenção. É preciso ambição nacional, planeamento de longo prazo e capacidade de mobilizar o país em torno de um projeto que inspire.

Hoje, perante uma oportunidade histórica de transformar o Jamor num verdadeiro estandarte do desporto e da cultura, escolhe-se o caminho mais curto e menos arriscado. Mas ainda vamos a tempo de corrigir. De sonhar mais alto. De construir, finalmente, um Jamor para o futuro.

Esta é também uma discussão sobre identidade. O Jamor não é apenas betão e relva. É património emocional, é memória coletiva, é palco de momentos que unem o país. Intervir no Jamor é definir que tipo de relação queremos ter com o nosso legado. Queremos preservá-lo na forma de um museu vivo, moderno e funcional, ou relegá-lo a uma existência simbólica, nostálgica e inoperante? Os estádios são espelhos das sociedades que os constroem. E o Jamor pode ser um reflexo daquilo que Portugal quer ser: inovador, inclusivo, ambicioso e com respeito pelo passado, mas com os olhos postos no futuro. A escolha está, como sempre, nas mãos de quem sonha mais alto.