Há uma nuvem densa e inevitável que se aproxima sempre que antecipo a possibilidade de uma “conversa de circunstância”. Essas pequenas trocas de palavras, que alguns consideram essenciais para quebrar silêncios, têm a audácia de se mascarar de momentos significativos.
Por exemplo, um vizinho preso no elevador comigo durante uns míseros segundos não quer genuinamente saber se está tudo bem comigo e com a minha família. Se eu respondesse: “Por acaso, a minha avó descobriu recentemente que tem um problema sério nos rins e está a fazer hemodiálise no Hospital São José três vezes por semana todas as manhãs e o meu avô mal consegue distinguir um gato de uma cadeira graças a um problema na retina”, o meu vizinho dificilmente ia oferecer ajuda. E vice-versa.
Então porque é que não se fica só em silêncio? É assim tão insuportável? O silêncio é confortável. As conversas de circunstância dão-nos uma ilusão de conexão humana porque está a haver uma troca de palavras entre dois indivíduos, mas sem ideias. Para quê insistir nisso?
Por outro lado, reconheço que há uma certa teatralidade nesse ritual. Os sorrisos forçados, os acenos mecânicos, os gestos ligeiramente exagerados. Um espetáculo digno de um palco Tivoli. Peças como “Bom dia, boa tarde, até amanhã”, “Elevador para lugar nenhum”, “A arte de não dizer nada” ou “Diálogo da chuva que nunca veio” são só ideias que deixo no ar para o senhor La Féria. Tudo dramas existenciais minimalistas e que exploram a profundidade do vazio.
Tenho a ideia que o mundo seria ideal se evitássemos todos as conversas de circunstância. Normalizar a ideia de que o silêncio faz bem à sociedade. Um mundo onde o silêncio não é visto como vazio, mas como uma pausa cheia de significado. Numa sociedade que valoriza tanto a eficiência, porque é que insistimos em perder tempo a falar do trânsito ou da fila do supermercado?
Está na hora de inverter a narrativa. Vamos libertar-nos das correntes da conversa de circunstância e aceitar o silêncio como a verdadeira expressão da civilização. Menos palavras inúteis e mais espaço para respirar, até porque o elevador já é um espaço pequeno o suficiente sem o peso adicional de palavras que ninguém realmente quer ouvir.