Marcelino da Mata é frequentemente lembrado como um dos militares mais corajosos e condecorados da história de Portugal, pela sua capacidade de liderança e eficácia em combate e por simbolizar tanto a coragem militar, como a complexidade e controvérsia associadas ao período colonial.
Um homem que, em circunstâncias extremamente difíceis, demonstrou disciplina, lealdade e um sentido de missão fora do comum. Natural da Guiné portuguesa, combateu sob a bandeira nacional durante a Guerra Colonial Portuguesa, destacando-se em operações de alto risco onde poucos ousariam avançar. Foi um soldado que não escolheu o contexto histórico em que viveu, mas que atuou com determinação dentro dele, algo que merece todo o nosso reconhecimento e respeito.
Marcelino da Mata não é apenas um nome na história militar portuguesa, é um antigo combatente do Ultramar e um símbolo de coragem concreta, vivida no terreno, em contraste com discursos ideológicos feitos à distância, representando todos aqueles que combateram na defesa das colónias portuguesas e que ocupam um lugar incontornável na história de Portugal.
Homenagear Marcelino da Mata é homenagear todos os antigos combatentes. Renegá-lo significa, portanto, renegar todos os antigos combatentes e tudo o que eles representam na história de Portugal.
Foram homens chamados a servir num dos períodos mais exigentes e marcantes do país, durante a Guerra Colonial Portuguesa. Longe de casa, em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, enfrentaram condições duríssimas, medo constante e a incerteza de cada dia. Representam uma geração que cumpriu o dever com coragem, sacrifício pessoal, camaradagem e resistência. Uma geração que deu tudo de si, um exemplo que merece ser lembrado com dignidade.
Suportaram o peso da guerra e regressaram com marcas, visíveis e invisíveis, que continuaram a carregar ao longo da vida. Foram homens que cumpriram o dever que lhes foi imposto pelo país e cujo reconhecimento público foi durante décadas inexistente. E quando o houve foi sempre insuficiente.
O silêncio, a indiferença e o julgamento não apagam aquilo que enfrentaram e muito menos diminuem a sua coragem.
Honrar a memória de Marcelino da Mata é, por isso, honrar a memória dos antigos combatentes. E isso significa, também, reconhecer a dimensão humana de quem esteve no terreno.
Recordá-los é um ato de justiça e memória, é afirmar que o seu esforço não foi esquecido, que o seu sofrimento não foi em vão e que o país que serviram tem a responsabilidade de os respeitar.
A memória de Marcelino da Mata deve ser analisada de forma equilibrada e compreendida dentro da dura realidade de uma guerra que marcou profundamente Portugal e os territórios africanos.
Opinar no conforto sobre quem como ele e tantos outros arriscaram a vida repetidamente durante a Guerra Colonial Portuguesa, enfrentando situações que poucos teriam capacidade ou coragem de suportar, revela desrespeito, ignorância sobre o contexto histórico, mas, e sobretudo, hipocrisia.
E é essa a “hipocrisia” dos setores da esquerda política e da pseudo-direita dissimulada, que tendem a julgar os antigos combatentes como Marcelino da Mata exclusivamente à luz de padrões atuais, ignorando o contexto complexo e brutal da época em que aqueles homens viveram. Mas mais do que isso, revelam uma enorme incoerência: condenam o indivíduo, mas evitam um debate sério sobre as responsabilidades políticas mais amplas da época.
Esta leitura seletiva da história desvaloriza o sacrifício individual dos militares que, independentemente do regime político, arriscaram a vida em combate e reduz os antigos combatentes como Marcelino da Mata a caricaturas, em vez de reconhecer a complexidade humana e histórica que os identifica. Não se pode reescrever a história nem transformar soldados em vilões unidimensionais.
Tal atitude, não é apenas injusta, é também uma forma de apagar o sacrifício de quem combateu, independentemente das circunstâncias políticas.
Mas a discussão sobre Marcelino da Mata expõe uma tensão mais profunda na sociedade portuguesa pós-25 de Abril de 1974: uma tensão entre a memória vivida de quem esteve no terreno e a interpretação ideológica construída décadas depois e que revela a hipocrisia de uma sociedade em lidar com o seu passado, especialmente quando esse passado envolve guerra, império e mudança política profunda no pós 25 de Abril de 1974.
É uma discussão que reabre feridas da guerra ultramarina, dos antigos combatentes do Ultramar e relembra as feridas de todos quantos regressaram e foram expulsos dos territórios ultramarinos e se viram acossados pela superioridade altiva da esquerda e dos pseudo- liberais.