A recente tomada de posição de Sophie Cunningham, jogadora da WNBA e do Indiana Fever, trouxe novamente para o debate um tema que muitos órgãos de comunicação insistem em abafar, contornar ou, pior, ignorar. Cunningham afirmou querer proteger raparigas jovens nos balneários e no desporto, dizendo que não devem ser obrigadas a competir contra homens biológicos. Uma frase simples, e, no entanto, a repercussão em cascata é reveladora de como este assunto está longe do seu epíteto.
A questão dos atletas trans no desporto feminino é relevante para todas as mulheres que lutaram, ao longo de décadas, para que os seus direitos e espaços próprios fossem reconhecidos. Ver este tema tratado com um secretismo envergonhado pelos meios de comunicação social, assume, para mim, enquanto mulher defensora dos direitos das mulheres, mas não feminista, um carácter que só posso classificar de lamentável.
Como pode um indivíduo nascido com dois cromossomas sexuais diferentes, XY, portador de todas as características físicas e fisiológicas a eles associadas, ser simplesmente rotulado de mulher e competir como tal? É verdade que a revisão sistemática mais recente sobre o tema, publicada no British Journal of Sports Medicine, não encontrou diferenças significativas de força ou capacidade cardiorrespiratória entre mulheres trans hormonizadas e mulheres cis. Mas essa conclusão assenta sobretudo em populações sedentárias, não em atletas de elite, onde os dados continuam escassos. Os próprios autores reconhecem que características estruturais como a caixa torácica, o comprimento dos membros, a densidade óssea e a massa magra tendem a manter-se superiores mesmo após anos de hormonoterapia, ainda que isso não se traduza, segundo eles, em vantagem “observável” nos marcadores medidos. Generalizar de sedentários para o desporto de competição é, no mínimo, metodologicamente frágil.
Não é por acaso que federações internacionais como a World Athletics e a World Aquatics optaram, em 2023, por excluir das categorias femininas de elite atletas que tenham tido puberdade masculina. Estas entidades tiveram acesso à mesma literatura científica e, ainda assim, decidiram aplicar um princípio de precaução em favor da equidade competitiva.
A própria WNBA, existe pela necessidade de separar estes jogos por género, tal como qualquer outro desporto.
A assunção de que alguém se identifica com determinado género, não faz de si um ser com características biológicas primárias do sexo em causa. Como pode então um indivíduo do sexo masculino, autointitular-se mulher e ver-se protegido por uma legião de comissários da inclusão e do politicamente correto, a ponto de ninguém ousar questionar se essa autoidentificação corresponde, de facto, à plenitude do que significa ser mulher enquanto ser biológico, portador de cromossomas XX?
O mesmo raciocínio aplica-se, e com igual urgência, aos espaços reservados às mulheres fora do campo de jogo: casas de banho e balneários femininos. Aqui, o argumento nem sequer depende de vantagem atlética. Estes espaços existem porque as mulheres têm direito a um lugar de privacidade e segurança perante o sexo biologicamente diferente, sobretudo em momentos de vulnerabilidade como despir-se ou tomar duche. Permitir a entrada de homens biológicos nesses espaços, independentemente da identidade que assumam, não é inclusão: é a negação de um direito conquistado a muito custo pelas mulheres, e não é refutável por nenhuma revisão sistemática sobre força muscular.
Nada tenho contra as pessoas trans. Cada um segue o caminho que entender para a sua vida, e isso merece respeito. O que não posso aceitar é que essa escolha individual se sobreponha aos direitos coletivos das mulheres enquanto grupo biológico, apagando fronteiras que foram estabelecidas precisamente para as proteger.