Quando recordamos Martim Moniz entalado na porta do castelo, partimos do princípio de que, uma vez permitida a passagem das forças cristãs, o assomo de bravura do cavaleiro de D. Afonso Henriques terá ficado por aí. Mas não. Martim Moniz continua entalado. Não o homem, mas o território. A praça que recebeu o seu nome repete hoje, em negativo, esse gesto fundador. Desta vez, porém, a abertura não serve a entrada de nenhum exército libertador; por ela entram, uns atrás dos outros, os problemas que Lisboa foi adiando e aprendeu a fingir que não vê.
Há anos que há uma questão com o Martim Moniz. Todos sabem. Quem por ali passa não tem como não se aperceber. Mas Lisboa habituou-se, quase por dormência. Há quem tente, num trabalho silencioso, enfrentar aquela realidade, das forças de segurança a algumas instituições. Ainda assim só quando aparece uma câmara de televisão, uma rusga ou uma agressão é que a cidade se lembra de que aquilo lá está.
Quando digo aquilo, refiro-me a isto: insegurança, tráfico miúdo, abandono do espaço público, imigração mal integrada, comércio duvidoso, exploração habitacional, solidão, pobreza visível, degradação urbana e uma incapacidade política quase pavloviana de encarar, com desassombro, a verdade do que ali se passa.
Ainda esta semana lá passei, a caminho do Largo do Caldas. Apanhei uma Gira e lá fui. Assim que parei, antes sequer de prender a bicicleta, já alguém me perguntava se queria haxixe. A cena não tem nada de extraordinário. Pelo contrário; e o problema é precisamente esse. No Martim Moniz, este tipo de criminalidade ligeira faz parte do mobiliário urbano. O cidadão aprende a desviar o olhar, a atravessar depressa, a encolher os ombros. Não sei quem foi o primeiro a usar a expressão, mas a “percepção de insegurança” não nasce por geração espontânea: nasce da experiência concreta das pessoas.
O Martim Moniz está também entalado entre a fantasia de uma esquerda que chama diversidade à desordem e o oportunismo de quem olha para a desordem apenas como combustível eleitoral. E a mesma esquerda que se entretém a falar sobre ciclovias é a mesma que guarda um silêncio obtuso sobre a revitalização dos centros históricos, sobre a urgência de os tornar habitáveis e de os adaptar às novas realidades demográficas. Eis o resultado: gente deitada no chão, cartões a servir de abrigo, comércio duvidoso e uma sensação geral de abandono, os imigrantes entregues aos capítulos locais das máfias dos seus países de origem. O Martim Moniz e as ruas circundantes são a antecâmara das falsas promessas feitas pelo Partido Socialista.
É preciso falar de segurança. E dizer uma coisa simples: segurança não é o contrário de integração. É a sua primeira condição. E quem leva Lisboa a sério não pode ter medo de dizer que há lugares inseguros em Lisboa.
Lembram-se do Intendente? Daquela espécie de Bairro Alto do crime? Do que era e do que é? António Costa, de quem não guardo propriamente uma memória deslumbrada enquanto presidente da Câmara, percebeu uma coisa fundamental na recuperação do Intendente: a importância de estar no terreno. Montou gabinete no centro do problema, mostrando, alto e bom som, que não se limitava a administrá-lo à distância. Pôs as mãos na massa.
Moedas vai a tempo de fazer algo grande naquela zona. Já reconheceu o problema. Para além do reforço da segurança, da videoprotecção ou da aprovação do projecto urbanístico para uma nova praça, é preciso e sabemos que pode mais. Um gesto político claro: instalar-se ali, simbólica e praticamente. Levar polícia, fiscais, urbanistas, serviços sociais, luz, limpeza, comércio legal, habitação decente, a presença municipal quotidiana. Levar-se a ele mesmo. E sair apenas quando aquela praça deixasse de estar entalada.
É mais do que tempo de devolver ao Martim Moniz o sentido da sua própria lenda. Há lugares onde a cidade inteira se decide. O Martim Moniz é um deles. Enquanto estiver entalado, Lisboa continuará entalada com ele.