Durante um longo período, o tempo passara como um fio gasto, correndo entre os dedos sem quase deixar rasto, repetindo, dia após dia, a mesma sensação de intervalo por preencher, como se a trama da vida tivesse ficado suspensa no tear. Nada de espectacular acontecera, nenhuma revelação evidente, apenas uma sucessão de dias aparentemente iguais em que, sob a superfície, qualquer coisa se ia deslocando milimetricamente de lugar. De modo quase impercetível, foram‑se acumulando certos sinais: uma disponibilidade nova para escutar, uma atenção mais fina às pequenas variações de luz sobre a casca das coisas, um outro modo de habitar o silêncio sem o sentir imediatamente como ameaça. Era como se, sob o tecido aparentemente inerte das horas, um trabalho minucioso tivesse ido tecendo em segredo uma nova trama de sentido, ponto por ponto, até que o tecido do presente ganhasse consistência suficiente para se deixar tocar. Só retrospectivamente se pressente que aquilo que julgávamos estéril era já tempo de metamorfose em capulho, o resguardo necessário para que uma forma antiga pudesse encontrar, enfim, outra maneira de se oferecer ao mundo.
Há experiências que, quando se afastam, não se extinguem: recolhem‑se às camadas mais profundas da memória, como crisálidas fora de época, à espera de um clima propício. Nesse intervalo, aprendemos a viver de substituições e de ensaios, experimentando formas provisórias de sentido que ajudam a atravessar os dias, mas não coincidem com aquilo que, em segredo, continuamos a procurar. Aparentemente reconciliados com a perda, vamos erguendo arranjos frágeis – rotinas, justificações, pequenas narrativas – que dão alguma ordem ao que nos acontece, embora não cheguem a pacificar o subsolo inacabado daquilo que ficou em suspenso. Basta, porém, um gesto reencontrado, uma paisagem antiga vista sob outra luz, um fragmento de frase ouvido ao acaso para que a superfície dura do tempo rache de súbito e deixe ver, por instantes, fios esquecidos que continuavam, afinal, ali. O passado que supúnhamos definitivamente arrumado regressa então não como simples repetição, mas como desvelamento: compreende‑se que aquilo que parecia ter sido interrompido era, na verdade, um trabalho subterrâneo de fiar, em que o próprio tempo ia torcendo e retorcendo o mesmo material até encontrar a textura adequada. Em lugar de um puro corte, aparece a possibilidade de releitura, como se o antigo tecido tivesse sido voltado do avesso e, nesse movimento, deixasse à vista o desenho oculto das suas costuras.
Quando esse retorno acontece, não é tanto o passado que volta tal e qual, mas nós que chegamos, enfim, ao lugar que desde sempre nos aguardava, como quem regressa a uma casa onde o tear nunca deixou de trabalhar. O reencontro com aquilo que se julgara perdido não apaga a ferida antiga; transforma‑a em cicatriz habitável, em memória que já não reclama reparação imediata, mas permite reconhecimento e até uma certa gratidão pelo caminho percorrido. Percebe‑se então que há fidelidades mais fundas do que os nossos planos, hábitos discretos da sensibilidade e do pensamento que resistem a viagens, exílios e aparentes abandonos, continuando a trabalhar em surdina, como larvas escondidas no interior de um ramo. São esses hábitos silenciosos que mantêm vivo o fio, mesmo quando já não sabemos nomear o que nos orienta, e que seguram a continuidade entre o que fomos, o que somos e o que ainda não conseguimos ser. Desse labor discreto nasce o instante em que o agora deixa de ser apenas passagem e se torna morada: um ponto de junção em que aquilo que sempre nos pertenceu se deixa finalmente ver, como se o próprio tempo, depois de muitos desvios, regressasse à sua nascente e, pela primeira vez, se percebesse a delicadeza do fio que o sustém. Aí, a antiga ferida deixa de ser apenas marca de ruptura para se converter em lugar de passagem, como uma porta que, depois de muito tempo cerrada, se abre e nos mostra que, do outro lado, alguém ficou sempre a tecer à nossa espera.
Quando, em 1856, para alargar e desenvolver o mercado da seda, uns arrojados missionários importaram da China a Samia cynthia, um belo satúrnido de grande tamanho, há milénios já que essa borboleta se servia dos ailantos para fiar a sua descendência. Interessava reforçar-se o trabalho da laboriosa Bombyx mori, cuja larva voraz se alimenta de folhas de amoreira. Ao contrário desta última – que chegou ao Ocidente via contrabando no interior de uma cana oca, pela mão de um monge cristão – a Samia, de um castanho belíssimo, mosqueado de ocres e pretos, viajou sem problemas: há muito que o Oriente perdera o monopólio da porcelana, da seda e do chá.
Ao princípio, as borboletas tiveram dificuldade em encontrar os pontos de apoio para os seus ovos e larvas. Procuraram a amizade dos ulmeiros e dos salgueiros, foram avançando pouco a pouco para as margens dos caminhos mais húmidos e tentaram que os seus amores não atraíssem os predadores. Como a seda que produziam não era da mesma qualidade que a gerada pela Bombyx, a sua criação sistemática foi posta de parte e aos exemplares que haviam fugido juntaram‑se outros libertados voluntariamente. A rápida adaptação dos primeiros fortaleceu a fragilidade dos segundos e, em menos de uma década, uns e outros tiraram partido dos sobreirais e das alfarrobeiras. Contudo, as borboletas europeias nasciam com um tom mais escuro do que as suas antepassadas na China. Pareciam ansiar por uma claridade. Não o clima, nem sequer as constelações que presidiam aos seus cortejos e aos seus voos nupciais, simplesmente a folhagem de uma claridade.
Assumindo a sua nostalgia, procuravam, por todos os meios, como colonos recentes, que a nova terra lhes aumentasse o gosto pelo seu pólen e pelo seu néctar. Cavilavam sobre mimetismos e troncos à luz da lua, advertindo‑se umas às outras quanto aos perigos da coruja, a grande caçadora de asas mudas. Passavam os invernos, as primaveras e os outonos e, quando chegavam os verões, voavam em busca do suco fermentado das bagas ou do doce mel dos figos. As chuvas adormeciam‑nas nos seus refúgios de pedras, asa contra asa. Permaneciam quietas sob folhas de nervuras curvas enquanto as brisas lhes traziam perfumes de rios e de raparigas novas. Mas aquela nostalgia indefinida, aquele sabor de ausência e de lonjura em plena atmosfera generosa persistiam. Não era algo que os seus olhos facetados captassem, que os seus palpos saboreassem ou que as suas asas percebessem na luz tépida.
Anos mais tarde, a ferida fechou‑se, pois só quando aparece aquilo que desde sempre nos pertence o agora preenche o nosso vazio.
— Chegámos — disseram os primeiros ailantos abrindo as suas flores amarelas e verdes. — A argila é grata às nossas raízes, as asas dos nossos frutos aceitam este céu.
Mais lentos do que a Samia na sua dispersão europeia, também os ailantos chegaram da China à Europa, mas nada fizeram para recuperar a velha amizade, pois bastava‑lhes equilibrar a sua sombra e a sua sede. Em 1870 já se contavam às centenas em França e em Itália e, uma dúzia de anos mais tarde, também Portugal mostrava, a quem as soubesse ver, as suas copas largas e altas.
As velhas alianças persistem na memória, pegadas de água nas cavernas, sinais de ondas nas espinhas das conchas. Assim, quando a primeira borboleta e o primeiro ailanto se reencontraram, leram no cruzamento dos seus destinos que as suas vidas não tinham esquecido uma o gosto da outra. E então cessou a nostalgia, apagou‑se a saudade, ressurgiu o afecto. Os ovos voltaram às folhas ancestrais, porque há hábitos que são fidelidades, e viagens que parecem fugas e abandonos e não são mais do que regresso, reconhecimento e fulgor. Para a esquerda ou para a direita, há um remoinho a girar num qualquer lugar do mundo para abraçar as suas águas.