No ecossistema informativo atual, instituições e profissionais especializados competem pela atenção pública com conteúdos sensacionalistas, criadores de conteúdo generalistas e opiniões instantâneas, num ambiente dominado pela valorização algorítmica das interações e pelo menor rigor científico.
A saúde enquanto conteúdo
No passado, a informação em saúde era sobretudo mediada por especialistas, instituições credíveis e formatos fundamentados em evidência científica. Apesar de estes continuarem a ser pilares estruturais, competem hoje pela nossa atenção com títulos sensacionalistas, criadores de conteúdo e opiniões instantâneas sobre temas que exigem rigor e formação.
Se uma das grandes conquistas do setor foi a evolução do conceito de “saúde” para além da ausência de doença, passando a entendê-la como bem-estar físico, mental e social, esta visão mais abrangente abriu espaço à expansão do mercado do bem-estar, permitindo transformar a saúde num produto passível de promoção, consumo e monetização.
Do exercício à perda de peso, da suplementação à vacinação, dos cuidados estéticos aos tratamentos oncológicos, a saúde tornou-se um conteúdo, passível de ser monetizado. Neste espaço, influencers e publicitários associam estilos de vida e experiências pessoais a linguagem científica e médica, muitas vezes sem clara distinção entre evidência, opinião e promoção comercial.
O incentivo à dramatização da saúde
A mesma lógica de atenção molda a forma como a saúde é noticiada. Os media digitais dependem do tempo de retenção e das interações com a sua audiência. E a saúde, por mexer com aquilo que mais temos de íntimo – incerteza, vulnerabilidade, dor e morte -, torna-se atrativa para um algoritmo que favorece esses sentimentos. Assim, o problema nem sempre é a desinformação no sentido clássico, mas a hiperdramatização de temas reais: surtos tratados como catástrofes, hospitais em colapso permanente, urgências em cenário de guerra e sintomas banais transformados numa ameaça grave.
Nas últimas semanas, no contexto do hantavírus, multiplicaram-se títulos alarmistas, com expressões como “vírus misterioso”, “especialistas preocupados” ou “nova ameaça”. A estes juntaram-se conteúdos imprecisos sobre sintomas inespecíficos, comparações pouco contextualizadas com outros surtos – como o norovírus, uma das principais causas de gastroenterite a nível mundial – explorando a memória ainda recente da pandemia por SARS-CoV-2, mesmo quando o risco epidemiológico é reduzido e os contextos dificilmente comparáveis.
Comunicar saúde enquanto responsabilidade partilhada
Num contexto mediático dominado pela rapidez e pela procura de interação, os órgãos de comunicação enfrentam um equilíbrio ético delicado, particularmente exigente na saúde, onde a imprecisão pode ter impactos desproporcionais nos mais vulneráveis.
Como vemos pela discussão europeia, incluindo o Digital Services Act, a circulação digital da informação já não é vista como indiferente aos seus efeitos: quando certos títulos geram medo, interpretações erradas ou procura desnecessária de cuidados, esse impacto não pode ser tratado como neutro. A liberdade editorial deve ser protegida, mas a responsabilidade pública de comunicar saúde com rigor também.
Do lado dos criadores de conteúdo, o desafio é mais subtil, uma vez que estes surgem num ecossistema digital centrado na partilha de identidade, construção de confiança e de proximidade digital, que valoriza mais a relação criada do que o conhecimento técnico ou especializado. Embora alguns usem a sua formação para democratizar o acesso à informação, outros exploram essa relação para fins comerciais, sem enquadrar adequadamente evidência ou riscos. Desta dinâmica podem resultar consequências concretas: casos de insuficiência hepática associados a substâncias “detox”, suplementos naturais não testados, pessoas que atrasam diagnósticos oncológicos porque seguiram recomendações da “medicina alternativa” ou doentes crónicos que abandonam terapêuticas validadas em favor de protocolos promovidos por figuras públicas.
Neste sentido, no combate à desinformação e na promoção da literacia em saúde, profissionais, instituições científicas, media e criadores de conteúdo devem trabalhar de forma mais articulada, responsável e ética.
Mais do que apresentar soluções fechadas, importa apontar caminhos:
● Criar uma ponte formal de colaboração entre autoridades de saúde, sociedades científicas, Ordens profissionais, jornalistas e editores, com reuniões regulares, desenvolvimento conjunto de projetos de literacia em saúde e articulação técnica para comentários especializados;
● Capacitar os profissionais de saúde para comunicar de forma mais eficaz, não apenas entre pares, mas também com a população, promovendo a tradução de conteúdos complexos em linguagem acessível;
● Criar um enquadramento legal específico para criadores de conteúdo em saúde – à semelhança do que já foi implementado em países como França e Espanha, definindo o seu estatuto, limites de atuação e mecanismos de responsabilização, com exigência de maior transparência quanto a conflitos de interesse, parcerias comerciais, qualificações, grau de evidência científica da informação transmitida;;
● Criar uma rede portuguesa de criadores de conteúdo em saúde, inspirada na rede Fides da OMS, integrando profissionais de saúde, doentes e jornalistas, promovendo boas práticas e conteúdos baseados em evidência;
● Reforçar os mecanismos de monitorização, através de equipas multidisciplinares, capazes de identificar rapidamente conteúdos potencialmente nocivos nas plataformas digitais e emitir respostas céleres, coordenadas e baseadas em evidência científica.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.