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Não podemos ser todos médicos

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A indústria da arte -- a possibilidade de ganhar a vida para uma pessoa criativa – está nos seus últimos dias, a ser mastigada e engolida pelas outras indústria que costumavam sustentá-la.

Se olhar à sua volta, pode verificar que as artes estão cheias de vida. Nunca houve tanta música disponível para ouvirmos em qualquer sítio, a qualquer hora. Há arte, ilustração e cartoons desenhados e pintados nas nossas paredes, nos nossos muros, na nossa pele e nas nossas capas de iPhone. O design está em todo o lado, sob a forma de publicidade, de sites da internet, de artigos domésticos e até nas coisas pirosas que metemos nos carrinhos de compras. As artes que compramos ajudam-nos a definir as nossas individualidades, e o que é que hoje em dia, é mais importante do que as nossas individualidades? Gastamos muito dinheiro nas coisas que nos definem, e por isso, as artes deviam estar em alta.

Acontece que não estão.

A indústria das artes criativas está a ser comida viva.

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A criatividade está bem e recomenda-se, mas a indústria — a possibilidade de ganhar a vida para uma pessoa criativa – está nos seus últimos dias, a ser mastigada e engolida pelas outras indústria que costumavam sustentá-la.

Agora, ninguém quer pagar muito por “conteúdos”, e muitas vezes não é preciso pagar nada. Todos sabemos o estado difícil em que está a indústria de música, e é com razão que protestam em voz alta… protestos que não fazem a mínima diferença. Os fãs querem agora a música de borla, e os músicos tiveram de voltar à rota dos espectáculos ao vivo, como menestréis, para ganhar a vida.

Mas as outras indústrias estão também em apuros. Todas as artes visuais, quase sem excepção. As belas artes, a ilustração, o design, a fotografia — todas têm problemas como a indústria da música. A internet, a qualidade incrível de máquinas fotográficas ao dispor de todos (uma evolução acelerada pela internet) e softwares gráficos acessíveis (outra evolução acelerada pela internet) têm dado cabo de nós todos.

Uns anos antes da internet ser lançada, nós, os ilustradores mais jovens, saímos da escola de belas artes, prontos para nos juntarmos ao mundo subterrâneo da ilustração, uma comunidade de pessoas sossegadas, que trabalhavam a sós e de quem ninguém ouvia falar, excepto no caso das três ou quatro super-estrelas da altura. A imprensa e as editoras dependiam dos desenhos dos ilustradores, e era possível ganhar a vida aviando duas ou três encomendas de vário tipo por mês. Não parece muito trabalho, pois não? Mas os ilustradores tinham de imaginar, preparar e realizar várias versões para agradar aos editores, comunicando por telefone, fotocópia, fax e pelos correios, ao mesmo tempo que tinham de aperfeiçoar a sua arte. Não havia fotografias rápidas de esboços para enviar através de email para o cliente ver no telemóvel. Não havia possibilidade de preparar uma ilustração de última hora, a não ser que vivesse à distância de um estafeta do jornal. A indústria da ilustração funcionava com uma certa selecção natural. As pessoas juntavam-se, ficavam e saíam, e a indústria sobreviveu durante muitos anos como uma espécie de colónia de toupeiras a fazer trabalho importante e belo.

E depois, a internet chegou. Ao princípio, pareceu um admirável mundo novo. Construí o meu primeiro website em 1997 para servir como cartão de visita, muito satisfeita, mas na ignorância total de que o mundo estava prestes a mudar.

Hoje, qualquer pessoa pode criar uma imagem (de qualidade indiferente) e publicá-la. Qualquer pessoa pode juntar umas palavras (de qualidade indiferente) e publicá-las. Qualquer pessoa… bem, todas as pessoas podem tirar fotos e publicá-las. Podem e fazem-no.

Uma massa tão grande de criatividade não pode ser coisa má, pois não? Claro que não. A internet tem revelado artistas e escritores que nunca imaginaram a possibilidade de entregar um manuscrito a um editor ou uma pintura a um galerista.

Mas a internet também tem causado muitos danos. A banalidade de muitas imagens está a matar o paladar de muita gente. Mas mais importante do que isso, é o facto de que há muitos artistas, escritores e fotógrafos profissionais, talentosos e altamente habilitados, que já não podem ganhar a vida.

Pergunte a um ilustrador ou a um escritor freelancer ou a um fotógrafo o que ganham por peça, e inicialmente pode pensar “bem, parece ok… qual é o problema?”, mas pense, depois, quantas peças dessas tem o ilustrador ou o escritor de produzir por mês para sobreviver, pagar a renda de casa, a segurança social, a comida e os lápis novos. É muito difícil encontrar tanto trabalho e fazer tanto trabalho. A imprensa e as editoras podem, hoje em dia, escolher entre milhões de produtores de conteúdos em vez de uma dúzia. Podem escolher os mais baratos e, em muitos casos, os mais grátis.

O mundo das artes ainda vive por seleção natural, mas agora começamos a ver que seleciona, não os melhores para o trabalho, mas quem tem meios independentes para se sustentar enquanto trabalha nas artes. A conclusão lógica disto tudo é que os trabalhos criativos no futuro serão realizados por puros amadores.

Faz mal esta situação? Faz mal que só os que têm empregos “verdadeiros” (não é a minha definição, obviamente), como os médicos, sejam pagos como deve ser?  Muitas pessoas acham que não, não faz mal, e não se importam. Eu, não. Eu acredito que as artes só podem evoluir de uma maneira saudável se houver muita gente no topo das indústrias que possa dedicar-se exclusivamente à sua arte, e não só ao fim do dia, depois de deixar o trabalho na mina.

Há uma única maneira de evitar esta espiral artística recessiva. Seria preciso que nenhum indivíduo criativo de qualquer espécie, quer um profissional de há muitos anos ou um miúdo acabado de sair da escola, de dispusesse a fazer qualquer trabalho encomendado sem cobrar, e cobrar bem. Nunca mais trabalhos baratos, nunca mais trabalhos de borla, nunca mais trabalhos “para exposição” (acreditem, isso nunca resulta)… Mas sei que isso não vai acontecer.

(traduzido do original inglês pela autora)

 

We can’t all be doctors 

Look around you and it seems that the arts are more alive than ever. There is more music available to us than ever before. There is art, illustration and cartooning painted and drawn all over our walls and skin and iphone covers. Design is everywhere in the form of advertising, websites, house wares and even in the garish things we put in our shopping trolleys. The arts we buy into help us to define ourselves to ourselves, and what, these days, is more important than ourselves? We spend vast amounts of money on stuff with which to define ourselves, so really the arts should be thriving.

They aren’t thriving.

The creative arts industries are being eaten alive.

Creativity is alive and well, but the industry, the ways of making a living from being a creative individual, is in its dying days, being chewed up and swallowed by the other industries that used to sustain it.

No one wants to pay much for “content” anymore, and much of the time, they don’t have to. We all know about the music industry being in trouble because they have lost staggering amounts of money and are, rightly, very loud in their protests… protests which don’t make the blindest bit of difference. Their fans still want to have music for nothing, so the the musicians have had to take to the road again, like minstrels, touring to make their money.

The other industries are in trouble too, though. The visual arts, all of them. Fine art, illustration, design, photography all in trouble for similar reasons as the music industry. The combination of the internet, incredible quality cameras at everyone’s disposal (an evolution accelerated because of the internet) and accessible graphics software (an evolution accelerated because of the internet) has done for us all.

A few years before the internet was launched to the whole world, we young illustrators left art school ready to join the secret underground world of illustration, a community of gentle, bookish souls who worked alone and whom no one had ever heard of, save the three or four superstars of the time. The press and publishers relied on the illustrators to provide them with additional colour. It was still possible to make a living. Illustration was well paid per job, and it was possible to live by doing two or three commissions of varying sizes per month. That doesn’t sound a lot of work, does it? But illustrators had to think and prepare and do various versions to please the publisher, communicating by phone and photocopies and faxes and post, as well as working on their skills. No quick sketches, photographed on our phones, emailed to the client then. No possibility of a last minute editorial cartoon if you didn’t live within a courier’s bike ride of the newspaper. The illustration industry worked its own kind of natural selection. People dropped in, people stayed, people dropped out, and the industry quietly survived for very many years, like a colony of moles doing important and beautiful work.

Then the internet happened. At first, it seemed like the brave new world. I built my first website as a kind of calling card in 1997, happy in my total ignorance that the world was about to change.

Today, anyone can create an image (of whatever quality) and put it out there. Anyone can string words together (of whatever quality) and put them out there. Anyone, well, everyone, can and does take a photograph and put it out there.

Such a mass of creativity can’t be a bad thing, can it? Of course not. The internet has brought us artists and writers who would never have even thought about delivering a manuscript or piece of artwork to a publisher.

But it has also done a lot of harm. The mundanity of many kinds of imagery is dulling everyone’s palate, and more importantly, professional, talented and highly skilled artists, writers and photographers aren’t getting paid anymore.

Ask an illustrator or a freelance writer or a photographer what they get paid per piece, and at first you might think “hey, that sounds ok, what’s the problem?” but then think how many of those pieces that person has to produce to survive a month of rent, social security, food and new pencils. It is be very difficult to do get that many pieces of work and do that many pieces of work. The press and the publishers can take their pick now from a pool not of a handful of creative types but millions. They can pick the cheapest and in many cases, the free-est.

The art world still lives by natural selection, but now it’s beginning to select the fittest not by who’s the best for the job, it is who can afford to be an artist, afford to give their work away for nothing. The logical conclusion of this is that all creative jobs will be done by hobbyists.

Does this matter? Does it matter that only what are deemed by very many people as “proper jobs” pay a living wage? Many people don’t think so.  But I think that the arts can only truly evolve in a meaningful way if they are lead by professionals who can dedicate their careers to their craft, and not just do it in their spare time having spent the day working down the mine.

There is only one way out of this downward spiral…  and that would be that no creative worker of any kind, whether a hardened professional of many years experience or a kid fresh out of college, do any commissioned work without charging for it, and charging for it properly. No work for cheap, no work for free, no work “for exposure” (believe me, that never works)…  and I know that that won’t happen.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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