Foi Militar invencível e dedicou toda a sua vida à Pátria e a Deus.

D. António, quando foi bispo e capelão da academia militar dizia: “Nenhuma época se repete, nenhum homem se copia. No entanto, há princípios ….e pessoas que, pela intensidade e pureza com que aderem a esses princípios, se tornam verdadeiramente exemplares. Por isso, o estudo de grandes figuras históricas não é um ato de saudosismo doentio, uma fuga para trás, um repúdio do tempo em que se vive, mas a aprendizagem de como,….., é possível triunfar da mediocridade e colocar-se, hoje mesmo, ao serviço de uma causa nobre”.

Dom Nuno,  grande cavaleiro e militar, que se tornou Santo, era na realidade uma pessoa como nós.

Não começou lá muito bem, teve origens um pouco estranhas aos olhos de hoje.

Era neto do Bispo de Braga, um cavaleiro da ordem de Malta e filho do Prior do Crato. Militar e político o que em épocas de grande violência e barbárie, o obrigava na defesa da sua pátria tão amada e na fidelidade ao Rei, a tomar decisões e ações muito difíceis e duras.

Antes da Batalha de Aljubarrota, quando quase toda a nobreza passa para o lado de Castela, D. Nuno, apesar dos elevadíssimos riscos, mantém-se fiel a Portugal e ao povo “podia lá eu, trair esta terra que me viu nascer”.

Mas, pode a espada e a cruz andar com o mesmo homem? Pode um jovem ser soldado, político e ao mesmo tempo, Santo?

Ele é a prova que pode, e, mais, em conjugação, tais condições, reforçam-se de tal maneira, que no seu caso o tornaram imbatível.

Nunca perdeu uma batalha.

Nas suas mãos, sempre estiveram, a espada e a Cruz.

Faleceu em 1431, foi beatificado em 1918 e santificado em 2009 por Bento XVI, adotando o nome de São Nuno de Santa Maria.

Demorou todo esse tempo, porque segundo as más línguas, Espanha tem mau perder.

Começou a sua vida na casa paterna e a sua educação foi feita seguindo os ideais da cavalaria medieval.

Aos 13 anos foi apresentado na corte e iniciou-se como bom cavalgante, torneador e lançador. As suas qualidades e o seu génio militar fizeram-no escudeiro da Rainha Dona Leonor Teles.

Tinha um grande gosto pela leitura e consta que aprendeu nos livros de cavalaria que a pureza era a virtude que tornava invencíveis os heróis da Távola Redonda.  Procurou que a sua alma e corpo se mantivessem imaculados.

Contra a sua vontade o seu pai obrigou-o a casar aos 16 anos com uma viúva rica de quem teve 3 filhos, dois rapazes que morreram muito novos e uma rapariga que também mais tarde morre ao dar à luz.

Dom Nuno Álvares Pereira está na origem da casa de Bragança.

Viveu em tempos muito conturbados e foi chamado a ter um papel relevante na nossa história.

Um incrível e motivador líder, de uma coragem inexcedível está sempre na linha da frente e utiliza o exemplo como a sua grande arma.

Em 1384 teve a sua primeira grande vitória frente aos Castelhanos na  batalha dos Atoleiros.

Pela primeira vez na Península Ibérica um exército a pé derrotou um exército em cavalaria pesada, os mais temíveis e destruidores na altura.

Assim, em 1385 as cortes portuguesas reconhecem o Mestre D’Avis como Rei, com o nome de D. João I.

Dom Nuno em recompensa é nomeado o Condestável de Portugal, conde de Ourém e membro do conselho do Rei.

Mas, o Rei Castelhano não se rende e invade a Beira Alta, Dom Nuno, reage e inicia cerco às cidades leais a Castela. Em ações fulminantes conquista a província do Minho.

No dia 14 de Agosto de 1385 deu-se a batalha de Aljubarrota, onde colocou em prática o que tinha aprendido com os Ingleses.

Esta vitória foi decisiva para consolidar a independência de Portugal. Após este acontecimento incorpora os títulos de conde de Arraiolos e de Barcelos.

Entre 1385 e 1390 faz várias incursões em Castela para manter a pressão e dissuadir o poderoso vizinho de fazer mais ataques.

Os Castelhanos ganham-lhe medo e já não o combatem em terreno aberto.

Ainda hoje, existem estórias/lendas espantosas entre a população, que contam que alguns Castelhanos arriscando a vida, se aproximavam das fortificações Portuguesas, apenas para o verem e lhe pedirem a benção.

Em 1385 também é travada a célebre batalha de Valverde, uma decisiva mas sobretudo reveladora batalha.

Quando começa a conquista de Ceuta ainda acompanha as nossas tropas em 1415.

“Ali me reúno à sombra de uma bandeira que me quis sagrar aluno de D. Nuno Álvares Pereira, que do alto da sua sela e montada, pôs Castela em debandada”, ouvi de José Campos e Sousa numa bela canção.

Tinha-se tornado um dos homens mais ricos da Europa, mas após a morte de sua filha todo este mundo terreno lhe dizia cada vez menos.

Dá tudo aos netos, companheiros de armas, ordens religiosas e desventurados.

O homem mais rico do reino faz-se pobre, terrível e miseravelmente pobre. Por fim quando nada mais lhe resta abdica de si próprio, adota o nome de Nuno de Santa Maria, em honra de Nossa Senhora e entra para o convento do Carmo, por ele erguido.

Não entrou como privilegiado, só conservou o indispensável para se proteger do frio. Despojou-se de tudo, e é o mais pobre entre os pobres, torna-se pobre para os pobres.

O poderoso e invencível Condestável escolheu ser um simples Donato a quem cabem as tarefas mais simples do convento, varrer, limpar, lavar.

Viveu os últimos nove anos na solidão de uma cela onde não tinha, nem queria ter, mais que a imagem de Cristo Crucificado.

Só sai para percorrer as ruas, descalço, mendigando, ajudando os necessitados.

Morreu em 1431.

Muitos historiadores e poetas o imortalizaram nos seus escritos, Luís de Camões refere-se a ele 14 vezes n´os Lusíadas e Fernando Pessoa celebra-o na Mensagem.

“Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando.
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!”

Fernando Pessoa, 08-12-1928

Nota: Tenho na minha secretária uma imagem de D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria) como inspiração e companhia.
Fontes: RTP memória, Prof. José Hermano Saraiva, Jaime Nogueira Pinto, Padre Ricardo Figueiredo e revista militar.