Perdi (no sentido físico, terreno) primeiro o meu pai, faz dois anos e agora a minha mãe.

Estou um pouco baralhado e confuso, com tudo isto.

Quando perdi o meu pai custou muito, mas ainda ficou a minha mãe. Até que, agora também a perdi, e perder uma mãe, é perder mais que uma vida, é perdermos quase tudo de nós.

Estou um caco.

Os nossos pais, e normalmente ainda mais as nossas mães, são o exemplo do amor, que nasce do sacrifício e da dor. Se este mundo fosse só materialista, diríamos que ser pai ou ser mãe, não compensava. Por muito que ela vivesse e por muito bom filho que eu fosse, várias vidas nunca chegariam para retribuir em igual valor, tudo o que ela me deu, e o pior nestas contas, é que senão me deu mais, foi porque não pode.

Os meus pais nasceram no distrito de Castelo Branco, nunca tiveram vidas fáceis, os meus avós lá os criaram, numa terra pobre, de pedras e estevas, isolada do mundo. Vieram para Lisboa muito novos, começaram a viver num quarto e mais tarde construiram a sua casa na Charneca da Caparica. Não aguentavam Lisboa, nem a vida urbana. Mas também não podiam voltar às Sarzedas / Pomar, por isso trouxeram a sua terra para a cidade, na forma de uma pequena horta, incluindo galinhas e coelhos.

Quando o cancro lhes bateu à porta, primeiro a um, depois ao outro, percebi que não os podia tirar de casa e colocar num lar, ou em outra instituição, não iriam sobreviver, ou pelo menos não seriam felizes. Assim morreram na sua casa, em família. Não foi nenhum heroísmo da minha parte, foi mais sorte e desprendimento material.

Uma carreira internacional (overseas) e nacional, em pequenas, médias e grandes empresas quase sempre na alta direção, o ter uma esposa magnífica que sempre me ajudou, criou as bases para que apesar das muitas dificuldades e abdicando de muita coisa, o desejo deles se tornasse realidade.

Em Junho de 2022, quando voltava da Polónia, os meus pais caíram os dois no quarto, e estiveram a noite e uma parte da manhã em posições bastante más, todos torcidos. Situação que diminuiria consideravelmente a autonomia que anteriormente tinham.

Chamei o INEM, expliquei a situação e lá fomos para o Hospital Garcia da Orta. Após longas horas de espera, um médico diz-nos que o assunto não era para ali, e nem valia a pena protestar. Fomos colocados na rua. Fiquei sozinho com eles, sem qualquer experiência e sem saber a quem recorrer.

Foi por essas e por outras que entrei para a política, pensando inocentemente que assim poderia impedir, ou pelo menos atenuar, que tais miseráveis e execráveis atitudes de um Estado prepotente e irresponsável continuassem.

Passei tempos muito complicados, estava sozinho, mudei-me para a casa deles, isto até conseguir alguém ou alguma instituição que nos ajudassem. Não existiam nem vagas, nem disponibilidade, pelo menos onde procurei.

No meio de tal desgraça e desespero, o centro de saúde da Charneca da Caparica salvou-nos. Foram eles, uma equipa incrível que nas visitas a casa, cuidaram da parte física, feridas, escaras, etc. E ajudaram na parte psicológica e de gestão das coisas, com aconselhamento e ação, mesmo em relação às burocracias.

O meu pai foi o primeiro a apanhar cancro, que se espalhou pelo corpo, incluindo os ossos. A certa altura tinha dores horríveis, eu não lhe podia sequer tocar, era um desespero, para mim e para ele. Foi aqui que o centro de saúde teve mais uma vez um papel fundamental, seguindo o doente e sinalizando-o aos cuidados paliativos de Almada Seixal, que são incríveis como profissionais e como pessoas.

Não consigo exprimir por palavras o bem que estas duas instituições nos fizeram, como nos trouxeram paz e controlo da situação. Pouparam bastante dinheiro ao SNS e ao mesmo tempo forneceram-nos qualidade de vida, bem estar, paz e esperança.

Os tratamentos feitos em hospital, após aquele primeiro incidente, sempre foram bastante profissionais e humanos, apesar das condições operacionais miseráveis no SNS, que no caso do meu pai conseguia contornar com a ADSE.

E, o pior é que não me parece difícil melhorar substancialmente o SNS, só é preciso coragem e capacidade política.

Esse deveria ser o trabalho dos políticos, em vez de andarem pelos corredores e pelas cadeiras do poder a criar telenovelas Mexicanas de baixo orçamento, ou  a ignorar olimpicamente tudo o que seja problema, até que se tornem ingeríveis, pela dimensão e interesses que a certa altura começam a envolver.

Um político que não serve a população, é um político que não serve para nada.

Foi assim, em conjunto, centro de saúde, cuidados paliativos e um casal meu conhecido, que na altura estava sem casa e que os meus pais acolheram, que a situação melhorou consideravelmente para todos.

Foi assim que no meio da dor, continuámos e até alargámos a família.

E foi assim que conseguimos ser felizes.

O meu pai viveu os seus últimos tempos relativamente bem, para mim foram os melhores e mais felizes dias que passei com ele.

A minha mãe abandonou esta vida de forma bastante tranquila, após uma semana verdadeiramente dramática.

Foi com a minha mãe, nestes últimos tempos, que a minha fé e saúde mental, mais foram colocadas à prova.

Na semana em que morreu, tudo corria mal na minha vida pessoal e profissional, muitos contratempos e dificuldades aconteciam. O meu vizinho foi assaltado, um fogo aconteceu junto ao local onde vivo, as férias deste ano com a minha esposa tinham que ser anuladas, a minha habitação teve uma série de avarias e problemas, o meu carro avariou com algo que pode ser grave, etc…. No partido aquelas jogadas e malvadezas do costume, da parte dos profissionais da coisa. A política, pelas regras que tem e pela nossa cultura anti-mérito, transformou-se num local onde a má moeda expulsa a boa, onde o grande adversário é o colega de partido, porque é esse que lhe pode tirar o lugar. Os partidos transformaram-se num lugar tribal, onde ninguém consegue vingar por mérito, onde se perdeu a noção de serviço aos outros, que deveria ser inerente a qualquer cargo político. E, com esta experiência, tenho a certeza, que os seus ordenados e regalias são mesmo demasiado elevados, para o pouco que dão ao país.

E quase coloquei a minha fé em Deus em causa.

Meu Deus porque permites isto?

Mas, na realidade, sem Deus, sem fé, com tanta coisa má, com tanta contrariedade, tinha-me perdido, tinha enlouquecido.

Perder uma mãe, sempre será uma perda imensa, dolorosa.

Para Sempre –  Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães se vão embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.”

E estou a voltar à minha vida normal, ao meu quotidiano preenchido de pequenos e grandes nadas, de alegrias, de tristezas, de esperança, de sonhos, de receios, de vazios, de choros, de sorrisos e de grandes gargalhadas.

Meus queridos pais, muito obrigado pelo que me deram, continuarão para sempre na minha vida.

A Morte não é nada – Poema de Santo Agostinho

A morte não é nada.
Apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou:
continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria fora de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe,
Somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem.
Redescobrirás o meu coração,
e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e se me amas,
não chores mais.”