A política em Portugal tem esse cheiro, uma mistura de perfume barato com o suor adocicado do poder, que se entranha como a humidade nos tectos das casas velhas e já ninguém nota, já ninguém comenta, já ninguém quer saber. Vão-se calando, um a um, como se calavam os vizinhos da infância quando o pai batia na mãe atrás da porta fechada da cozinha. E agora, como se não bastasse tudo o que já sabíamos, como se não tivéssemos aprendido nada com os cadáveres morais acumulados nas gavetas dos partidos, vem a Iniciativa Liberal, o meu partido, que se dizia nova, que se dizia limpa, que se dizia outra, oferecer-se a Luís Filipe Menezes. Luís Filipe Menezes, o rosto cansado e cirurgicamente refeito da política que apodrece e cheira mal, mas insiste em parecer viva com maquilhagem a mais e memória a menos.

Lembro-me dele como se nos lembrássemos de um parente embaraçoso que se esconde nas festas de família para fumar cigarros junto à retrete. Sempre ali, sempre presente, sempre prestável, e sempre a mais. Não é preciso puxar muito pelo raciocínio para perceber que Menezes representa o que há de mais antigo, mais gasto, mais encardido na política portuguesa: a omnipresença do cacique, o truque fácil da promessa que se recicla, a ideia de que governar é uma questão de palco e de calor humano, de andar no meio do povo a apertar mãos e dizer piadas de mau gosto enquanto os contratos se assinam no silêncio dos gabinetes. Menezes não é um político, é uma instituição de si mesmo. E a IL, pobre dela, com a frescura de um pacote de leite fora do prazo, achou boa ideia apoiá-lo.

Durante anos, vendiam-nos a narrativa bonita: o partido da ruptura, do mérito, da razão. O partido dos jovens bem vestidos e mal dormidos, dos gráficos, das tabelas, da liberdade como quem reza um pai-nosso com sotaque da Foz. E agora, com um sorriso em forma de aceno de cabeça, entregam-se a um homem que viveu toda a vida agarrado ao que há de menos liberal no país, as máquinas partidárias, as lealdades viscerais, as câmaras municipais como quintas herdadas onde se plantam amigos em vasos de cargo e se colhem votos a cada quatro anos.

É isto que se chama estratégia, dizem os prudentes. É isto que se chama maturidade política. Como se a maturidade fosse sinónimo de amnésia. Como se ser adulto implicasse vender a alma em prestações suaves. Mas esta decisão, apoiar Menezes, não é táctica, é fraqueza. Não é pragmatismo, é desnorte. E acima de tudo é uma confissão: a confissão de que, afinal, não são diferentes. São iguais. Usam palavras novas para os mesmos velhos gestos. Vestem-se melhor, falam melhor, mas ajoelham-se no mesmo altar: o altar do poder pelo poder, da vitória a qualquer preço, mesmo que o preço seja a vergonha.

Menezes não é compatível com o liberalismo. É incompatível com qualquer ideia de futuro. E a IL, ao abraçá-lo, não só perde a coerência, perde o rosto. Transforma-se num partido indistinto, indistinguível, diluído no caldo morno dos oportunismos que têm destruído o país desde sempre. Não admira que os militantes se revoltem, que os eleitores se calem, que os adversários sorriam com o canto da boca como quem diz “sabíamos que chegariam aqui”.

Não é apenas um erro. É um ponto sem retorno. E ao contrário dos relatórios e dos manifestos, que se esquecem com o tempo, estas decisões ficam. Como tatuagens mal feitas. Como cartas de amor que se escrevem embriagado e não se conseguem rasgar porque, lá no fundo, sabemos que dizem a verdade.

E a verdade, desta vez, é dolorosa: a Iniciativa Liberal traiu-se. E, traindo-se, confirmou o que os cínicos sempre disseram. Que não há política nova. Que não há sangue fresco. Que no fim, somos todos Menezes. Só que uns ainda não sabem.