No coração da Falagueira, na Amadora, sobrevive um pedaço quase esquecido da nossa história coletiva: o Aqueduto das Galegas. Parte integrante do monumental Aqueduto das Águas Livres, esta estrutura de pedra do século XVIII permanece como uma testemunha silenciosa das gentes que ajudaram a construir Portugal. Porém, poucos sabem ou se lembram a razão por trás do seu nome: “Galegas”. Este nome não é um acaso nem uma simples designação geográfica. É, na verdade, um símbolo dos milhares de imigrantes galegos que, vindos do norte de Espanha, contribuíram com o seu trabalho, a sua cultura e, para muitos, até as suas vidas, para erguer aquilo que agora tomamos como dado adquirido.
Tal como tantos outros imigrantes ao longo da nossa história, os galegos não trouxeram apenas braços para o trabalho, mas também barrigas que fizeram filhos. Construíram não só cidades, mas também famílias que, à medida que se misturaram com a sociedade portuguesa, acabaram, muitas vezes, por ocultar as suas verdadeiras origens. Além de contribuírem com o seu trabalho, trouxeram também palavras que, com o passar dos séculos, incorporámos na língua portuguesa sem nos darmos conta das suas raízes estrangeiras. Trouxeram ainda a culinária, com as suas tascas e pequenos restaurantes onde gerações de portugueses saciaram a fome e que ainda hoje resistem como lugares de sociabilidade.
Na Amadora, o Aqueduto das Galegas é um exemplo gráfico desta história de encontros. Apesar do crescimento vertiginoso do tecido urbano, é possível encontrá-lo no Parque da Mónica ou em ruínas discretas ao longo da Estrada de Queluz, sobrevivendo como um fragmento de uma memória que se tenta apagar. A cidade, por seu turno, avança apressada, moldada pela modernidade global, enquanto as marcas da participação galega, até explícitas no nome deste troço, desaparecem para dar lugar a abstrações que nos afastam da nossa verdadeira história. Neste silêncio, os “Galegos” de outrora tornam-se invisíveis. A velha estratégia da neutralidade – apagar nomes, apagar histórias – é, afinal, um método que Portugal já conhece bem.
Por isso, é surpreendente ouvir, quase 300 anos depois do início da construção do Aqueduto das Águas Livres, que o debate contemporâneo sobre a imigração continua a ser pautado pelo esquecimento. Recentemente, fomos informados de que 18.000 imigrantes serão notificados para deixar o país nas próximas semanas. Eles são tratados como meros números, como se a vida pudesse ser simplesmente organizada e apagada com a mesma facilidade com que se risca uma linha num documento do Excel. No entanto, esquecemo-nos de que este país não seria o que é sem as muitas mãos estrangeiras que, ao longo dos séculos, não só moldaram as pedras dos aquedutos e dos edifícios, mas também as ruas, os mercados e as casas onde hoje habitamos. Falamos de expulsão, mas esquecemo-nos da memória. Falamos de crise, mas não reconhecemos que os imigrantes sempre foram fundamentais para sustentar esta nação.
Ao observarmos o grande arco do Aqueduto das Águas Livres, que corajosamente atravessa o Vale de Alcântara, ou os fragmentos do Aqueduto das Galegas, no coração da Amadora, não podemos deixar de reconhecer a verdade: somos um país construído sobre migrações, sobre o encontro de culturas e sobre a riqueza da diferença. Ao ignorarmos esses contributos históricos, ignoramos também uma parte de nós próprios. E é por isso que apelar à expulsão de imigrantes neste momento não é apenas um erro prático, mas um erro moral. Porque até as pedras têm histórias para contar e, um dia, seremos lembrados por aquilo que fizemos — ou deixámos de fazer — com a oportunidade de honrar essa herança.
Neste Portugal de hoje, definir quem fica e quem sai não é apenas decidir sobre o futuro, mas também reconhecer toda a força que o passado imigrante trouxe e continua a trazer para aquilo que somos. Afinal, quantos de nós, sentados hoje em cadeiras confortáveis, com os nossos apelidos ancestralmente registados, devem a sua própria existência aos imigrantes que agora rejeitamos?
Antes de informar os portugueses sobre a expulsão de 18 mil imigrantes, talvez agora, durante a campanha eleitoral, seja o momento oportuno para perguntar se queremos repetir os erros do passado, ignorando a contribuição daqueles que nos fizeram e continuam a fazer crescer.
Nota: As opiniões expressas são pessoais e não representam a posição do IST.