Pode parecer estranho dizê-lo aos 20, aos 40 ou aos 60 anos. Mas o Dia Internacional das Pessoas Idosas é também o meu dia. E o seu. Porque envelhecemos desde o dia em que nascemos.
No dia 1 de outubro assinala-se o Dia Internacional das Pessoas Idosas. Foi criado para lembrar que as pessoas mais velhas são um ativo para a sociedade. Mas o maior equívoco desta data é pensar que ela diz respeito apenas aos idosos. É um dia sobre todos nós.
Afinal, se tivermos sorte, todos seremos mais velhos amanhã do que somos hoje. E um dia, se a vida nos der esse privilégio, também faremos parte daquilo a que chamamos população idosa.
Este ano, o lema escolhido pelas Nações Unidas, “A era da longevidade: repensar os sistemas para vidas mais longas”, convida-nos a uma reflexão que vai muito além da proteção social ou dos cuidados prestados aos mais velhos. Obriga-nos a pensar como estamos a construir a sociedade em que queremos envelhecer e, sobretudo, como estamos a construir a pessoa que seremos nas últimas décadas da nossa vida.
Portugal e o mundo vivem uma transformação demográfica sem precedentes. Nunca a humanidade viveu tantos anos. A esperança média de vida aumentou de forma extraordinária ao longo do último século e os cidadãos com mais de 65 anos representam uma proporção crescente da população. É uma das maiores conquistas da humanidade.
Mas é também uma conquista que nos impõe novas responsabilidades.
Vivemos mais anos. Nem sempre vivemos melhor.
A doença crónica, a fragilidade, a dependência funcional, a perda de autonomia e o isolamento social continuam a marcar a vida de muitas pessoas nas últimas décadas da sua existência. Os sistemas de saúde, as cidades, a habitação, os transportes e os mecanismos de proteção social foram concebidos para uma realidade demográfica diferente daquela que hoje enfrentamos e nem sempre conseguem responder adequadamente às necessidades associadas à fragilidade, à dependência e à incapacidade.
Repensar os sistemas tornou-se, por isso, uma necessidade.
Precisamos de cidades acessíveis, de habitações adaptadas, de respostas eficazes de cuidados continuados, de apoios aos cuidadores e de organizações capazes de integrar pessoas de diferentes idades. Precisamos também de combater o idadismo, essa forma silenciosa de discriminação que reduz indivíduos com décadas de experiência, conhecimento e participação cívica à sua idade cronológica.
Mas existe um risco quando discutimos a longevidade apenas a partir dos problemas da velhice.
É olharmos para o envelhecimento como algo que começa aos 65 anos.
Não começa.
Envelhecemos desde o dia em que nascemos.
Cada criança, cada adolescente, cada adulto jovem e cada pessoa de meia-idade está já a construir a sua própria velhice.
Esta mudança de perspetiva é fundamental porque altera a pergunta que devemos fazer. Em vez de perguntarmos apenas como devemos cuidar dos idosos, devemos perguntar-nos como podemos chegar à velhice em melhores condições.
O envelhecimento não é um acontecimento. É um processo.
E a forma como esse processo decorre resulta da interação entre fatores biológicos, sociais, económicos, ambientais e comportamentais acumulados ao longo de toda a vida. A educação que recebemos, as oportunidades que temos, as relações que construímos, a segurança económica, o ambiente onde vivemos, a participação na comunidade e os hábitos que adotamos moldam, todos eles, a nossa capacidade de envelhecer com saúde e autonomia.
Por isso, a longevidade não se conquista apenas nos centros de saúde ou hospitais. Conquista-se nas escolas, nas famílias, nos locais de trabalho, nos bairros, nas associações, nos espaços públicos. Nas escolhas que fazemos todos os dias durante décadas.
A sociedade tem a obrigação de criar condições favoráveis. O papel das políticas públicas é garantir que o potencial de cada pessoa não fique condicionado pelo código postal onde nasceu, pelo rendimento da sua família ou pelo contexto em que vive.
Mas há igualmente uma dimensão de responsabilidade individual que não pode ser ignorada.
Esperar que a medicina consiga reparar, aos 75 ou 80 anos, os efeitos acumulados de uma vida inteira de sedentarismo, tabagismo, má alimentação, privação de sono, isolamento social ou ausência de propósito é uma ilusão que alimentámos durante demasiado tempo.
A verdadeira prevenção não começa quando surge a doença.
Começa muito antes.
Começa quando escolhemos caminhar em vez de permanecer sentados. Quando preservamos relações de amizade. Quando aprendemos algo novo. Quando participamos na vida da comunidade. Quando cuidamos da nossa saúde mental. Quando encontramos significado nas atividades do dia a dia. Quando investimos em nós próprios e nas pessoas que nos rodeiam.
Cada decisão tomada hoje é, em certa medida, um contrato assinado com a pessoa que seremos amanhã.
É por isso que o Dia Internacional das Pessoas Idosas não deve ser apenas uma homenagem a quem já percorreu um longo caminho. Deve ser também um convite à reflexão para aqueles que ainda o estão a percorrer.
Talvez nenhuma frase resuma melhor este desafio do que a célebre máxima de Abraham Lincoln: “no fim, não são os anos da tua vida que contam; é a vida nos teus anos”. Não se trata apenas de viver mais. Trata-se de viver melhor. Não se trata apenas de acrescentar anos à vida, mas de acrescentar vida aos anos.
Porque envelhecer não é um problema de alguns. É o destino comum de todos aqueles que tiverem o privilégio de continuar vivos amanhã.
O Dia Internacional das Pessoas Idosas não é apenas para quem já chegou lá. É o dia de todos os que esperam viver muitos anos com saúde, autonomia, funcionalidade e felicidade.