Portugal é hoje um dos países mais longevos da Europa. A esperança de vida à nascença ultrapassa os 82 anos, acima da média da União Europeia e em linha com os países europeus mais desenvolvidos. Esta é uma conquista extraordinária da medicina, da saúde pública e do desenvolvimento económico.
No entanto, os portugueses passam menos tempo com boa saúde do que muitos dos seus parceiros europeus, sobretudo após os 65 anos. Viver mais tempo em Portugal significa que temos sido eficazes a tratar as doenças, mas que as pessoas vivem com mais dependência, mais incapacidade e maiores necessidades de cuidados. Apenas metade dos portugueses classifica a sua saúde como boa ou muito boa, significativamente abaixo da média europeia.
O nosso sistema de saúde foi estruturado no final da década de 1970 para responder à realidade da época: população mais jovem, predominância das doenças agudas e esperança de vida de cerca de 70 anos. Hoje os tempos são outros, e o sistema de saúde é chamado a acompanhar, ao longo de anos, pessoas com múltiplas doenças crónicas, fragilidade crescente e necessidades cada vez mais complexas.
Paralelamente, a medicina passou a compreender melhor os mecanismos que conduzem à doença. Se antes se tratava o enfarte e o AVC como inevitabilidades da vida, passou-se, entretanto, a combater os fatores de risco que os antecedem: hipertensão, colesterol elevado, diabetes, excesso de peso ou tabagismo e, ainda mais precocemente na linha do tempo, a intervir nos estilos de vida, na alimentação, na atividade física, no sono, no stress e em múltiplos fatores ambientais e sociais. A lógica é simples: quanto mais cedo intervirmos, maior a capacidade de evitar a doença.
Esta evolução foi racional e trouxe ganhos inegáveis, ainda que expandindo o campo de ação da saúde. Aquilo que antes era apenas doença passou a incluir o risco, os comportamentos e os próprios contextos de vida. E cada uma destas novas fronteiras foi sendo absorvida pelo sistema de saúde como mais uma das suas responsabilidades.
Por outro lado, instalou-se a expectativa de uma resposta global por parte do sistema de saúde, como se fosse possível encontrar na medicina uma resposta a todos os problemas da vida. Ao tratamento e prevenção das doenças juntamos agora o envelhecimento, a iliteracia, as desigualdades, a solidão e uma parte crescente dos problemas da vida em sociedade.
Assistimos a uma crescente medicalização da vida quotidiana, como se esta saúde se resolvesse por prescrição, recomendação e vigilância clínica. Quase transformámos a lista de compras do supermercado numa extensão da receita médica. E nesta abrangência, fomos alimentando uma subtil desresponsabilização individual e coletiva: se a saúde é um problema do sistema de saúde, então alguém tratará de a resolver por nós.
Há um limite para aquilo que a medicina consegue fazer sozinha.
Tratar doenças e, ao mesmo tempo, gerir vidas e os seus percursos é uma tarefa hercúlea que torna difícil produzir mais anos de vida com qualidade. Não porque o sistema esteja a falhar, mas porque lhe estamos a pedir que resolva problemas cujas causas e soluções se encontram, em larga medida, fora dele.
As doenças não ocorrem por acaso. São o resultado de um percurso de vida. As exposições durante a gravidez, a alimentação na infância, as experiências adversas precoces, o contexto familiar, a educação, a atividade física, as condições de trabalho e as escolhas quotidianas acumulam-se ao longo de décadas, moldando oportunidades e riscos. Muito antes do diagnóstico, a doença é frequentemente uma biografia.
A saúde não começa no centro de saúde nem termina no hospital.
Durante demasiado tempo, organizámos a sociedade como se a vida pudesse ser dividida em disciplinas independentes: de um lado, a saúde; de outro, a educação; e noutros, a vida social, o trabalho, a habitação ou a cultura. Como se a escola não tivesse responsabilidades na construção da saúde futura. Como se as relações sociais não influenciassem o bem-estar físico e mental. Como se os médicos e os profissionais de saúde fossem os únicos guardiões da saúde coletiva.
Sabemos que não é assim.
Por muito importante que seja a relação com o médico, a verdade é que passamos apenas algumas horas por ano em contacto com profissionais de saúde. O resto do tempo vivemos, trabalhamos, estudamos, fazemos compras, criamos filhos, convivemos, caminhamos, conduzimos, descansamos e participamos na comunidade. É nestes ambientes que a saúde se constrói ou se destrói.
Se queremos ganhar anos de vida com qualidade, precisamos de adiar o aparecimento da doença incapacitante. E isso exige uma visão muito mais ampla do que a prestação de cuidados médicos. Exige reconhecer que a saúde depende das escolhas individuais, mas também das oportunidades coletivas que tornam essas escolhas possíveis.
É por isso que precisamos de um novo modelo.
Naturalmente, precisamos de serviços de saúde próximos, acessíveis e integrados. Um centro de saúde verdadeiramente moderno deve acompanhar as pessoas ao longo da vida, identificar precocemente problemas, coordenar os cuidados e responder à crescente complexidade de uma população envelhecida.
Mas os recursos não são infinitos. Uma sociedade que vive mais precisará, inevitavelmente, de mais cuidados. O desafio é garantir que essa longevidade seja sustentável e se traduza em ganhos efetivos de saúde e qualidade de vida. E isso não se alcança apenas com mais médicos, mais exames ou mais tecnologia. Exige também cidadãos mais informados, comunidades mais envolvidas e uma sociedade mais consciente do seu papel na construção da saúde.
É fundamental distinguir: os cuidados de saúde tratam a doença, aliviam o sofrimento e previnem complicações. Mas a saúde em si está na escola que ensina competências de vida, no supermercado, na habitação, nas condições de trabalho, nas famílias e na comunidade. E está no planeamento urbano, na mobilidade, no ambiente, no ordenamento do território e na capacidade de cada geração de criar condições para que a seguinte viva melhor.
Neste momento, a questão não é saber se conseguimos viver mais anos. Essa batalha foi vencida e a inovação tecnológica que se avizinha poderá prolongar ainda mais a longevidade. O verdadeiro desafio é garantir que esses anos sejam vividos com autonomia, participação e significado.
Viver mais é uma vitória da medicina.
Viver melhor terá de ser uma conquista da sociedade.