Nasci em 1994, em pleno ‘Vietname’ Benfiquista. Isso não é apenas um dado biográfico, é uma condição.

Nunca vi o Benfica grandioso. Nunca vivi um Benfica que entrava em campo e cuja única certeza era ganhar, tornando-se, ao longo da história, o mínimo aceitável. É que antes, no Benfica, não se negociava a vitória e não se relativizavam derrotas.

No entanto, o Benfica que me foi dado a conhecer já estava de rastos. Financeiramente fragilizado, desportivamente diminuído, culturalmente órfão. Um clube gigantesco a comportar-se como quem tenta sobreviver, não como quem nasceu para dominar. E, desde então, apesar de ciclos melhores, nunca mais voltou verdadeiramente a ser esse Benfica.

Foi fora do campo, curiosamente, onde fui percebendo a dimensão do que perdi.

Ao longo dos anos tive a oportunidade de conviver com lendas e ex-jogadores do Benfica e ouvi, na primeira pessoa, os relatos dos tempos de glória – sem esquecer a exigência quase brutal dos adeptos. Um Benfica cujas vitórias não eram garantia de aplauso, principalmente se a equipa não tivesse honrado o peso da camisola. Um clube vitorioso, mas igualmente vaiado quando o nível exibicional ou a atitude não correspondiam à sua grandeza.

É por isso que a realidade de hoje me é tão difícil de compreender. Como é possível um clube, moldado nesta cultura de exigência absoluta, resvalar para o conforto, para a complacência e para este aburguesamento coletivo – sobretudo entre muitos dos que viveram esse Benfica grandioso?

Neste momento o clube vive anestesiado e confortável na narrativa da inevitabilidade, cultivando uma ideia nos seus adeptos onde se transmite que competir é suficiente, que perder faz parte do processo e onde exigir algo além do contexto atual é ser injusto. A exigência passou a ser confundida com ingratidão e a ambição com impaciência. Houve, ainda assim, um parêntesis que importa recordar.

A chegada de Jorge Jesus mudou o paradigma. Pela primeira vez, desde que tenho memória, vi um Benfica a jogar à Benfica. Uma equipa dominadora, intensa e arrogante, mas num bom sentido. Um Benfica que entrava para esmagar, não para gerir: um Benfica que devolveu aos adeptos a sensação de superioridade moral e futebolística.

E atenção ao contexto, pois Jesus apanhou um FC Porto no auge da sua hegemonia, herdeiro direto de Mourinho e com uma máquina montada para ganhar. Ainda assim, o Benfica voltou a impor-se. Voltou a exigir. Voltou a acreditar que ganhar campeonatos não era exceção — era obrigação.

Mas falhar a conquista do ‘penta’ não foi apenas um desaire desportivo, foi o gatilho para o regresso ao velho estado mental. É claro que, desde esse momento, o clube recuou culturalmente. Voltou o discurso do equilíbrio, da compreensão, do “não se pode ganhar sempre”. Voltou a normalização do insucesso relativo. Voltou o Benfica pequeno dentro de um corpo gigante.

Hoje, na véspera de um encontro frente o Real Madrid — outro histórico, um clube que vive da exigência e da pressão dos seus adeptos – é fácil constatar o contraste entre ambas as equipas.

No Real Madrid o adepto não vai ao estádio para apoiar, vai para fiscalizar. Fiscaliza o nível de empenho, a intensidade e a seriedade com que se honra a camisola. Ganhar não é motivo de celebração especial, é o cumprimento de uma obrigação mínima. A derrota, essa, abre imediatamente uma crise: tudo é questionado e tudo posto em causa, mesmo após longas séries de vitórias. E é precisamente essa brutalidade cultural que mantém o clube no topo há décadas.

No Benfica a exigência tornou-se suspeita. Inconveniente. Quase um incómodo político. E isso talvez seja o mais trágico de tudo.

O Benfica não perdeu apenas títulos; perdeu também a sua cultura de vitória. Perdeu a intolerância à mediocridade. Perdeu o medo de falhar que o colocou tantas vezes mais perto de vencer. E, aos poucos, tornou-se um clube que reage, em vez de impor. Que justifica, em vez de exigir. Que aceita, em vez de dominar.

Eu nunca vi o Benfica grandioso. Mas sei que ele existiu.

E, enquanto continuar a existir esta distância entre o que o Benfica foi e o que aceita ser, o seu downfall continuará — lento, silencioso e perigosamente confortável.