O Benfica apresentou um orçamento para as modalidades de cerca de 27,6M de euros, um valor que mantém o Clube num patamar de investimento muito semelhante ao das últimas épocas. A ambição competitiva permanece intacta e a aposta no ecletismo continua a ser uma das marcas distintivas da instituição.

No entanto, os grandes desafios estratégicos raramente se escondem no valor de um orçamento. Revelam-se, antes, na capacidade de perceber se o modelo que hoje sustenta esse investimento continuará a ser sustentável amanhã.

É precisamente essa a pergunta que importa fazer: estará o Benfica a preparar as modalidades para um futuro em que o futebol já não tenha a mesma capacidade para financiar o restante clube?

Importa esclarecer, desde já, aquilo que esta discussão não é.

Não é uma crítica ao ecletismo. O Benfica distingue-se dos restantes grandes clubes portugueses precisamente pela dimensão e relevância das suas modalidades. Também não é uma defesa de cortes no investimento. O Benfica deve continuar a apostar nas modalidades e a competir para vencer, mas a verdadeira questão é saber como garantir que essa ambição continua a ser financeiramente possível daqui a cinco ou dez anos.

Os números ajudam a enquadrar o desafio.

O orçamento das modalidades aproxima-se dos 28M de euros. O défice operacional mantém-se entre os 20 e 22M. Em contrapartida, as receitas de patrocínios e publicidade representam apenas cerca de 2,3M de euros, pouco mais de 8% do orçamento.

O restante financiamento continua a depender essencialmente de duas fontes: a totalidade da quotização dos associados e os royalties pagos pela Benfica SAD. Na prática, a atividade das modalidades continua a ser financiada, em larga medida, por receitas geradas fora delas.

Este modelo foi possível porque o futebol cresceu.

Durante anos, as vendas de jogadores, os prémios das competições europeias, os direitos audiovisuais e a valorização da marca Benfica permitiram aumentar progressivamente o investimento nas modalidades sem colocar em causa o equilíbrio financeiro do Clube.

Mas nenhuma realidade financeira é permanente.

Há poucos meses, o vice-presidente para a área financeira, Nuno Catarino, alertou que a centralização dos direitos audiovisuais poderá representar uma redução de cerca de 25% das receitas atualmente obtidas nesta rubrica. Independentemente de o impacto final ser maior ou menor, existe uma tendência que dificilmente poderá ser ignorada: o futebol terá, no futuro, menos margem para financiar o Clube exatamente da mesma forma que o fez na última década.

É precisamente por isso que esta discussão deve começar agora, e não quando as circunstâncias obrigarem a tomar decisões difíceis.

Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para as modalidades apenas pelo lado da despesa. Discutimos salários, reforços, treinadores e títulos, mas quase nunca discutimos a sua capacidade para gerar receitas.

Num universo que movimenta perto de 28M de euros por época, faz pouco sentido que as receitas de patrocínios e publicidade representem apenas uma pequena fração do orçamento. O mesmo acontece com a exploração comercial da marca, da bilheteira, do merchandising, dos conteúdos digitais, dos eventos e de outras oportunidades que permanecem largamente subaproveitadas.

O exemplo do FC Barcelona demonstra que este caminho não é uma utopia. Nas suas modalidades, os patrocínios assumem um peso muito mais significativo no financiamento da atividade. No Andebol representam cerca de dois terços das receitas e, no Futsal e no Hóquei em Patins, aproximam-se da sua totalidade.

O clube chegou mesmo a comercializar o naming das suas secções através de um patrocinador principal – durante vários anos identificadas como ‘Barça Lassa’. Não se trata de copiar modelos, mas de retirar uma conclusão evidente: se existe uma área onde o Benfica pode reduzir a dependência do futebol, é na capacidade de atrair parceiros comerciais para as suas modalidades.

O verdadeiro potencial económico das modalidades não está apenas dentro do campo. Está, sobretudo, fora dele.

Ninguém espera que as modalidades se tornem financeiramente autónomas. Num clube eclético, o futebol continuará sempre a desempenhar um papel decisivo no seu financiamento. Ainda assim, existe uma diferença fundamental entre apoiar as modalidades e fazê-las depender quase exclusivamente dos excedentes gerados pelo Futebol.

Quanto maior for a capacidade das modalidades para gerar receitas próprias, maior será a sua autonomia, mais resiliente será o modelo financeiro do Clube e menor será a pressão sobre o futebol para suportar sozinho uma estrutura cada vez mais exigente.

Esta reflexão torna-se ainda mais pertinente quando o próprio Clube continua a dever cerca de 85M de euros à SAD pela aquisição do Estádio da Luz e da BTV. A operação, realizada em 2019, previa um pagamento faseado ao longo de 25 anos. No entanto, para além da primeira prestação, a dívida praticamente não voltou a ser amortizada. Não se trata de um problema financeiro imediato. Trata-se, isso sim, de mais um lembrete de que adiar encargos não elimina a necessidade de preparar o futuro.

Os grandes clubes distinguem-se pela capacidade de antecipar desafios, não apenas pela forma como reagem quando eles já se tornaram inevitáveis.

A sustentabilidade das modalidades não se garante quando faltarem recursos. Garante-se enquanto eles ainda existem.

Porque o verdadeiro desafio não é encontrar quem pague a conta.

É garantir que, no dia em que o futebol deixar de o conseguir fazer quase sozinho, o Benfica já tenha construído um modelo suficientemente sólido para continuar a vencer.