Para onde quer que se olhe nas notícias, as manchetes são claras: “Empresa portuguesa adquirida por X; investimento estrangeiro em negócio nacional”, e outras mais. O mercado de tecnologia português enfrenta um momento de transição que pode ser visto de duas formas: uma consolidação estratégica ou uma redução do que é nacional é bom. O recente movimento de aquisições por parte de grupos internacionais e os despedimentos em grandes empresas levantam questões importantes sobre o futuro do setor.
Nos últimos meses, empresas como a Boost IT, Hexis, PHC Software e Beta-i passaram para o controlo de conglomerados estrangeiros. Para alguns, este é um sinal de sucesso – afinal, as nossas empresas são suficientemente inovadoras e competitivas para atrair o interesse de gigantes internacionais. No entanto, este fenómeno também pode ser visto como um enfraquecimento do mercado nacional, que parece incapaz de manter e expandir as suas próprias referências tecnológicas de forma independente.
Ao mesmo tempo, os despedimentos na Outsystems, Farfetch e Nokia Portugal indicam uma reestruturação que pode estar relacionada com desafios globais, mas que afeta diretamente o nosso ecossistema made in Portugal. Se antes a fuga de talento era a grande preocupação, agora a fuga de empresas pode tornar-se uma realidade. Sem um tecido empresarial sólido e sustentável, Portugal arrisca-se a ser apenas um fornecedor de mão de obra qualificada, sem controlo sobre as grandes decisões estratégicas do setor tecnológico.
A realidade é que, em Portugal, sempre houve poucas empresas com verdadeiro controlo do mercado, mas recentemente esta situação tem-se sentido mais. É certo que nenhuma empresa tecnológica portuguesa consegue sustentar-se apenas com o mercado interno. E isto não é novidade nenhuma, não fossemos nós portugueses conhecidos pelos descobrimentos e que a música Conquistador dos Da Vinci, que tão bem nos define. Por isso, o foco destas empresas estrangeiras não estará propriamente neste nosso lindo país com o seu clima solarengo e excelente gastronomia e bom vinho, mas sim no talento nacional. É indiscutível a capacidade de adaptação e as soft skills que nos correm no sangue tuga. Eu diria que a abordagem não é de um investimento estratégico para o país, mas sim voltada para o modelo de nearshore e de Portugal como porta de entrada para a Europa. Ou seja, seremos então um meio para atingir um fim?
Na minha perspetiva, o futuro será bastante diferente, mas a tendência de compra irá manter-se. O que é que isto significa? Por um lado, as empresas estrangeiras continuarão a integrar empresas nacionais e a consolidar-se no mercado. Por outro lado, com a crescente presença da inteligência artificial generativa, as “one-man companies” poderão tornar-se mais comuns do que imaginamos. E aqui voltamos sempre ao mesmo ponto: pessoas/talento e inovação. Haverá uma necessidade cada vez maior de reconversão e upskilling, para que aqueles que permaneçam no mercado estejam preparados para a era da IA. Continuaremos a precisar de pessoas, mas cada vez mais especializadas, criativas e com capacidade crítica construtiva.
Para onde caminhamos, então? Estamos perante um ciclo natural de evolução e integração num mercado global, ou estamos a perder a nossa capacidade de inovação e crescimento interno? A resposta pode estar na forma como o país encara o empreendedorismo tecnológico: será que há incentivos suficientes para que as start-ups cresçam e se tornem referências internacionais, sem precisarem de ser adquiridas? As políticas públicas e privadas estão alinhadas para fortalecer o setor das IT e garantir que Portugal não seja apenas um celeiro de talento, mas também um motor de inovação sustentável? Estamos preparados para formar as pessoas com tecnologias que realmente importam?
Mais do que lamentar a saída de empresas e o impacto dos despedimentos, é crucial refletir sobre como podemos fortalecer o ecossistema tecnológico nacional. Investimento em I&D, melhores condições para as start-ups e políticas que promovam a retenção de talento, são apenas algumas das medidas necessárias para garantir que Portugal continua a ser um ator relevante na cena tecnológica global. Até lá, as manchetes irão continuar a repetir-se, apenas com protagonistas diferentes.