Quando os pais “se demitem”, as escolas cedem e a sociedade digitaliza sem critério, o que acontece? A educação em Portugal está a caminhar para um modelo tecnológico que esquece o essencial: a presença, o pensamento crítico e a responsabilidade.
Vivemos tempos em que a transformação digital tornou-se sinónimo de progresso. Em todas as áreas, incluindo na educação, a tecnologia é apresentada como solução. Mas quando olhamos com atenção, percebemos que muitas vezes se digitaliza sem critério, sem preparar o terreno e, pior ainda, esquecendo o que realmente conta: o desenvolvimento humano.
Um dos casos mais recentes que me deixou perplexa foi o de um exame nacional de Português onde os alunos tinham de utilizar auriculares para ouvir um áudio. A questão é simples e preocupante: como pode um professor garantir que o aluno está a ouvir o áudio do exame e não outra coisa? Em que momento decidimos que a tecnologia valia mais do que a segurança e a seriedade de uma avaliação nacional? E mais: como é que um exame de Português é feito exclusivamente no computador, sem uma única linha escrita à mão? Já nem é preciso saber escrever? A caligrafia, a expressão manual, o ritmo do pensamento a passar para o papel, tudo isso já não conta? Estamos mesmo dispostos a abdicar de competências básicas em nome da “eficiência digital”?
A isto junta-se a banalização dos smartphones nas escolas. Em muitas, não há regras claras e noutras há uma permissividade perigosa. Os telemóveis transformaram-se em extensões do corpo, aceites como inevitáveis, quando na verdade muitas crianças e adolescentes não têm qualquer tipo de literacia digital e os pais, em muitos casos, também não!
O argumento clássico de que “é para estarem contactáveis” serve de desculpa para colocar um smartphone com acesso irrestrito nas mãos de uma criança. Se o objetivo é mesmo garantir contacto, então ofereçam um telemóvel com teclas, que só faça chamadas. Simples. Mas a verdade é que é mais fácil seguir a corrente do que assumir a responsabilidade de educar. Onde está o tempo dedicado a observar e dialogar com os filhos? O apagão digital que vivemos há poucos meses revelou muito mais do que problemas de infraestrutura: revelou o vazio da presença. Muitos pais não sabiam o que fazer com os filhos sem Wi-Fi. Isso diz-nos tudo.
Há ainda outro fenómeno que me preocupa: escolas que optaram por eliminar por completo os livros físicos e os trabalhos manuais, funcionando exclusivamente através de computadores. À primeira vista parecem modelos educativos inovadores e digitalmente avançados. Mas a verdade é que, ao reduzir a experiência educativa ao ecrã, estão a comprometer o desenvolvimento de competências humanas essenciais.
A motricidade fina, a capacidade de concentração fora do digital, a criatividade manual, a empatia e a colaboração prática são competências que se constroem no mundo físico e são decisivas para formar adultos equilibrados e conscientes. Um ensino totalmente digitalizado não é sinónimo de evolução. Pode, pelo contrário, representar uma enorme regressão no que toca à preparação para a vida em sociedade.
Importa deixar claro que eu não sou contra a adoção do digital. Pelo contrário, eu trabalho em marketing digital, sei o valor que a tecnologia pode trazer quando bem aplicada. O problema não está na tecnologia, mas na sua utilização acrítica. O digital deve ser integrado com contexto, com critério e sempre que acrescente valor sem comprometer o desenvolvimento de competências humanas fundamentais.
Sou uma defensora da educação como pilar da evolução social. E não falo de educação apenas institucional. Falo da educação que se constrói no quotidiano, com exemplos, com presença, com escuta ativa e com intenção. A pedagogia Waldorf, que escolhi para as minhas filhas, ensina precisamente isso: desenvolver o pensamento crítico, a empatia, a autonomia e a ligação ao mundo real. Esta pedagogia existe há mais de 100 anos e está presente em dezenas de países, com escolas em Inglaterra que celebram um século de existência. Em Portugal, nomes marcantes da nossa história como a Snu Abecassis, fundadora das Edições D. Quixote, estudaram numa escola Waldorf, bem como os seus filhos. Esta abordagem não é nova. É, aliás, mais atual do que nunca num tempo que pede humanismo, sentido crítico e consciência.
A tecnologia é uma ferramenta poderosa. Mas é isso mesmo, uma ferramenta. Não substitui relações, não resolve por si só e, acima de tudo, exige critério e contexto. Integrar o digital na educação não pode ser sinónimo de substituir o essencial. Porque educar dá trabalho. E se não estivermos dispostos a assumi-lo, não há app, plataforma ou inteligência artificial que nos salve da consequência de termos “desistido” dos nossos filhos.
Cabe a nós, pais, empreendedores, decisores de negócio e líderes sociais, não nos deixarmos levar pela manada. A inovação verdadeira não está na substituição do humano, mas na sua valorização. Este é o debate que temos de ter. Urgente, sem filtros e com coragem.