Decidir é um acto de solidão absoluta.
Conta-se que, numa manhã, na preparação de uma missão de uma determinada unidade das Operações Especiais das Forças Armadas, deu-se uma lição que mostra bem o abismo que existe entre a percepção do poder e a realidade da liderança. Um jovem oficial, prestes a embarcar estranhou um detalhe enquanto verificava o seu equipamento. A sua mochila estava significativamente mais leve que a dos homens sob o seu comando. O jovem tenente ficou incomodado com a disparidade física, pois parecia-lhe uma injustiça, um privilégio “quase burguês”, no meio de uma austera e difícil missão.
Ao partilhar esse desconforto com um velho sargento, recebeu uma resposta que desarma qualquer ilusão romântica: “Não se preocupe, Comandante. O seu peso não é físico. O peso que carrega é outro. É a solidão do comando.”
Esta “solidão” não é uma mera metáfora. Recentemente, a realidade cobrou o seu preço mais alto no Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE) do Exército, em Lamego. A morte de um jovem militar durante uma prova não é apenas uma notícia de rodapé, é a materialização brutal do peso daquela mochila.
Este artigo serve, antes de tudo, como homenagem a esse militar e a todos os outros, que, ao longo da nossa História, pereceram em serviço. O rigor, o empenho, a honra e o espírito de missão que estes homens e mulheres encarnam não deviam ficar confinados aos quartéis. São, na verdade, o último reduto de valores que precisamos desesperadamente de transpor para a vida civil. Para o comandante que fica, a mochila nunca mais estará vazia, ela carrega a memória dos que partiram. Esse é o custo de quem comanda.
Se transportarmos este exemplo de serviço e sacrifício para o tecido empresarial, percebemos o quão oca é, por vezes, a liderança moderna. Um CEO que compreenda a lição dos nossos militares sabe que a empresa não é um tabuleiro de xadrez financeiro, mas uma verdadeira trincheira humana. À luz da Doutrina Social da Igreja, tal como no exército se cuida do soldado, na empresa deve-se proteger a pessoa. O líder que assume a liderança como serviço, é aquele que, na solidão do seu gabinete, assume o ónus moral de manter a dignidade de quem trabalha, em vez de gerir pessoas como meros “recursos” descartáveis.
É também no rigor e na honra militar que as famílias podem encontrar o seu norte.
O casamento que assenta no ser, na entrega total, tal como o soldado se entrega à pátria, tem vocação de eternidade. Quem entende que “carregar a mochila” na família significa abdicar do controlo para servir o outro, sabe que esse laço é indissolúvel. O amor real, despido de egoísmo, é um acto de serviço contínuo. O verdadeiro “peso do comando” familiar não está nas famílias que “têm tudo”, mas naquelas que, muitas vezes com parcos recursos, “são tudo”.
O problema surge quando esta honra é substituída pelo sentido de posse. Vemos demasiados casais que operam como “sociedades anónimas”, unidos apenas pelo património e estatuto. E, inevitavelmente, quando a relação é baseada na posse e não no serviço, vem o vazio, aí a família morre, por vezes não fisicamente, mas espiritualmente, porque nunca houve um propósito de “servir e proteger” o outro, apenas de o possuir.
Finalmente, chegamos à política, onde a mochila parece insuportavelmente leve por falta de coragem e excesso de vaidade. Com governantes e políticos viciados em posts do Instagram e vídeos do tik-tok, Portugal vive mergulhado numa comunicação política assente em “likes”, onde o marketing se sobrepõe à responsabilidade.
Os nossos governantes parecem ter esquecido uma máxima lapidar de Oliveira Salazar, que independentemente da cor política ou do juízo histórico sobre o regime, encerra uma verdade antropológica bem real, e que os nossos militares conhecem bem: “Se soubesses o que custa mandar, preferias toda a vida obedecer.”
Esta sentença devia ecoar nos corredores de São Bento. Lembra-nos que governar não é cortar fitas nem gerir a espuma dos dias nas redes sociais. Mandar “custa”. Custa o sacrifício pessoal. Custa a impopularidade de tomar medidas duras hoje para salvar o país amanhã.
O real drama nacional é que todos querem o prestígio do cargo, mas quase ninguém quer pagar o preço do serviço. Que o exemplo dos nossos militares tombados, que pagaram o preço máximo com silenciosa dignidade, sirva de vergonha e de estímulo para quem lidera empresas, famílias e o Governo. Precisamos de menos marketing e de mais honra. Porque alguém tem de carregar o peso da decisão, e esse peso é sagrado.