Nos últimos tempos, tenho reparado numa tendência curiosa no mundo da paleontologia: a criatividade dos cientistas a baptizar dinossauros anda ao nível de um escritor de novelas brasileiras em plena maratona de cafeína. Basta olhar para a mais recente descoberta na Argentina: o Joaquinraptor. Sim, leu bem. Não é nome de jogador da segunda divisão, nem do novo concorrente do “The Voice Portugal”. É mesmo um dinossauro, daqueles que viveram há milhões de anos, que caçavam, rugiam e, pelos vistos, já tinham uma costela artística no campo do marketing de nomes.

Ora, se há “Velociraptor” (rápido), “Tyrannosaurus Rex” (o rei dos lagartos tiranos), ou “Triceratops” (três chifres na cara), nomes que fazem jus à imponência e ao drama da vida jurássica, agora temos o simpático Joaquinraptor. Confesso que, quando ouvi, imaginei o meu vizinho do 3.º esquerdo, o Joaquim, de chinelos, a passear o cão. Só que, em vez de levar uma trela com um poodle, trazia um crocodilo enfiado na boca. Coisas da vida, não é?

A cena é quase cinematográfica: a paleontologia transformada em reality show de bairro. Vejam só: um dia normal, abro a janela e lá está o Joaquimraptor a regar as plantas da varanda. Em vez de um regador, usa a cauda. Depois, à noite, junta-se à malta para ver o jogo da seleção, mas não pode bater palmas porque as mãos são curtas demais. E quando se irrita porque a vizinha do rés-do-chão faz barulho, solta um rugido que faz tremer as janelas.

O mais curioso é que já nem sei se os cientistas estão a dar nomes aos dinossauros ou a criar personagens para a próxima temporada de uma novela qualquer:

“Carlosaurus”, o lagarto que discutia política no café.

“Anaraptor”, que nunca pagava a conta da luz.

“DonaGertrudisceratops”, que cozinhava arroz de polvo melhor do que qualquer outro ser pré-histórico.

Imaginem só os manuais escolares daqui a umas décadas. As crianças a decorar: “O Joaquinraptor era um dinossauro carnívoro que habitava na Argentina e alimentava-se de crocodilos, sardinhas em lata e, ocasionalmente, de vizinhos barulhentos.” Como é que se vai manter a seriedade nas aulas de Ciências Naturais com isto? A professora a tentar explicar e os miúdos todos a rir porque o nome parece tirado de uma reunião de condomínio.

E, sejamos francos, dar nomes de pessoas normais a dinossauros tem muito potencial. A paleontologia pode finalmente tornar-se acessível ao grande público. Porque uma coisa é dizer: “Hoje descobri que o Allosaurus tinha um crânio de 80 centímetros.” Outra, bem mais emocionante, é poder afirmar: “Sabias que o Joaquim, ali da pastelaria, afinal já andava por cá no Cretácico?” Isso, sim, aproxima a ciência do povo.

A minha preocupação é: até onde vai esta tendência? Será que um dia vamos ter fósseis batizados como “Tiagoasaurus do Uber Eats”, que corria atrás das suas presas montado numa trotinete elétrica? Ou “Patriciapteryx”, uma ave que, em vez de penas, trazia extensões e marcava presença nos voos do Instagram pré-histórico?

No fundo, o Joaquinraptor levanta uma questão existencial: e se os nossos vizinhos forem, secretamente, dinossauros disfarçados? O senhor do talho, que tem sempre dentes impecáveis, não será um descendente de T-Rex? A senhora que arrasta o carrinho das compras cheio de promoções do Continente pode muito bem ser uma Stegosaurus camuflada em casaco de malha. E aquele amigo que nunca vem às festas porque “está em extinção”? Quem sabe.

A ciência, meus caros, vai avançando, mas os nomes… os nomes são ouro puro. Talvez este seja o caminho certo: humanizar os dinossauros. Torná-los próximos. Afinal, se até o Joaquim pode ser um raptor, então todos nós temos um lagarto gigante dentro de nós, pronto a rugir contra as injustiças, a falta de estacionamento e a subida do preço da eletricidade.

Até lá, continuarei atento. Se ouvir passos pesados no prédio, não me vou assustar. Provavelmente é só o Joaquimraptor a subir as escadas porque o elevador avariou outra vez.