Cientistas de instituições portuguesas e espanholas descobriram uma “nova e enigmática” espécie de anfíbio a partir de fósseis minúsculos com 66 milhões de anos encontrados em Espanha, indicou esta sexta-feira a Universidade Nova de Lisboa.

Em comunicado, a Faculdade de Ciências e Tecnologia da universidade (NOVA FCT) adianta que “mais de oitenta ossos descobertos na década de 1990 permitiram identificar uma espécie anteriormente desconhecida de anfíbios semelhantes a salamandras“.

Os fósseis, que incluíam ossos isolados do crânio, vértebras e outros elementos do esqueleto, foram encontrados em Areny, Huesca, na comunidade de Aragão, em Espanha, e revelaram que “os albanerpetontídeos, um misterioso grupo de lissanfíbios extintos, passaram de formas mais esguias para formas mais robustas no final do Cretácico, pouco antes da grande extinção em massa provocada pelo impacto de um asteroide, que levou ao desaparecimento dos dinossauros não avianos”.

Alexandre Guillaume, investigador do polo do Centro de Investigação GEOBIOTEC (GeoBiociências, Geotecnologias e Geoengenharias) na NOVA FCT e que liderou a investigação, refere que “os paleontólogos têm encontrado muitos fósseis minúsculos de albanerpetontídeos na Europa, mas ainda não tinha sido descrita nenhuma espécie”.

Os albanerpetontídeos teriam menos de cinco centímetros de comprimento e “uma língua que projetavam rapidamente para capturar alimento, à semelhança dos camaleões, pele seca e escamosa, garras de material semelhante à queratina e pálpebras”.

Segundo o estudo, publicado na revista científica Cretaceous Research, estes anfíbios constituíram uma “componente importante dos ecossistemas” da era geológica do Mesozoico, “mas o seu tamanho diminuto e a fragilidade dos seus ossos dificultam a sua identificação”.

A equipa de investigadores também encontrou indícios de que poderão ter existido duas linhagens distintas de albanerpetontídeos na Europa no final do Cretácico.

“Ainda nos falta muita informação sobre a Ásia Central, mas os nossos dados sugerem que as espécies da Europa Ocidental terão tido alguma influência de espécies da América do Norte, enquanto as da Europa Oriental poderão ter tido influência de espécies asiáticas ou de populações europeias mais antigas”, indica Alexandre Guillaume, citado no comunicado.

A zona de Ribagorça, onde foram recolhidos os ossos em 1997, é “muito rica em fósseis de vertebrados”, assinala Eduardo Puértolas-Pascual, do Instituto Geológico e Mineiro de Espanha (IGME) e um dos orientadores da investigação.

“Nos últimos anos, já foram descritas duas novas espécies de dinossauros e duas de crocodilos”, acrescenta, explicando que o que torna a zona “particularmente interessante é o facto de se situar imediatamente abaixo do limite Cretácico-Paleogénico, que assinala a extinção em massa provocada pelo impacto do asteroide”.

A nova espécie de anfíbio foi batizada de Synorerpeton ribagorzana.

O nome Synorerpeton vem do grego antigo e significa “o animal que rasteja na fronteira”, segundo o comunicado, que explica tratar-se “de um duplo jogo de palavras, que alude tanto à proximidade do limite geológico Cretácico-Paleogénico (K/Pg), associado ao impacto do asteroide, como à fronteira entre Aragão e a Catalunha, onde os fósseis foram encontrados”.

Já ribagorzana “presta homenagem à região da Ribagorça e ao rio Noguera Ribagorzana, que marca precisamente a divisão geográfica entre as duas regiões”.

A NOVA FCT sustenta que “esta descoberta ajuda a esclarecer as complexas migrações dos anfíbios do passado e destaca a Península Ibérica – e, em particular, a região da Ribagorça – como uma janela fundamental para compreender os últimos capítulos da era dos dinossauros”.

O paleontologista Miguel Moreno-Azanza, da Universidade de Saragoça, em Espanha, foi outro dos orientadores do trabalho, no qual colaborou igualmente o investigador Hugues-Alexandre Blain, do Institut Català de Paleoecologia Humana i Evolució Social.