A descoberta de um novo dinossauro com penas no nordeste da China permitiu demonstrar que dinossauros e aves não herdaram a capacidade de voo de um antepassado comum, mas desenvolveram essas capacidades de forma independente e convergente.
O fóssil, batizado de Norellraptor barsboldi, analisado por uma equipa internacional de cientistas da China e de Itália e descrito na terça-feira num artigo publicado na Nature Communications, mudou o que se sabia sobre a forma como os dinossauros conquistaram os céus.
O exemplar de microrraptoríneo (pequenos dinossauros com penas e asas), excecionalmente bem conservado, foi descoberto na formação geológica Jiufotang (China), um sítio do Cretácico Inferior com idades compreendidas entre os 145 e os 100 milhões de anos.
Os microrraptoríneos eram pequenos dinossauros predadores semelhantes às aves e parentes próximos destas.
Os fósseis descobertos até agora (a maioria na China) mostravam que alguns microrraptoríneos tinham penas longas tanto nos membros anteriores como nos posteriores, o que sugere que poderiam estar adaptados para o voo.
Durante muito tempo, os paleontólogos debateram se a capacidade de voar ou planar surgiu apenas uma vez no antepassado comum dos Paraves (o grupo que inclui os microrraptoríneos e as aves) ou se as características necessárias para tal evoluíram de forma independente em múltiplas ocasiões.
O estudo descreveu um fóssil de 57 centímetros que preserva partes da sua plumagem e que, segundo as análises, tinha pelo menos três anos de idade quando morreu.
Ao comparar as características de voo do novo fóssil com as de outros microrraptoríneos e com as da linhagem das aves primitivas (Avialae), verificou-se que estes pequenos carnívoros e as aves primitivas partilhavam 57 características morfológicas relacionadas com o voo, o que representa aproximadamente 30% dos traços físicos fundamentais necessários para voar.
No entanto, apesar de partilharem um grande número de estruturas, os investigadores acreditam que as aves e os dinossauros não herdaram um “mapa de projeto” único.
Em vez disso, desenvolveram os seus aparelhos de voo de uma forma completamente “independente e convergente”, em resposta a necessidades semelhantes e a diferentes pressões evolutivas.
Para os autores, a principal evidência desta separação reside na ordem pela qual os seus corpos evoluíram, que foi completamente oposta, na linhagem das aves, a evolução transformou primeiro a cintura escapular e as articulações da asa antes de modificar a mão.
Já nos microrraptorinos, como o Norellraptor, as primeiras transformações consistiram no encurtamento dos ossos dos dedos para reduzir a sua função de preensão. Só muito tempo depois surgiram o esterno alongado e as modificações nos ombros.
Para os autores, esta divergência na sequência temporal das mudanças demonstra que não existia um modelo genético latente ou partilhado que orientasse ambos os grupos.
Além disso, a análise microscópica dos ossos do braço do Norellraptor revelou que os seus membros cresciam a ritmos descontínuos e muito particulares.
Este padrão osteo-histológico difere dos mecanismos de desenvolvimento observados nas aves voadoras atuais, o que confirma que as asas dos microrraptorinos se formaram sob as suas próprias dinâmicas biológicas.
O estudo sobre o Norellraptor deita por terra o paradigma da origem única do voo e revela que a capacidade de voar não foi uma inovação única na história dos dinossauros, mas antes uma “experiência evolutiva” que a natureza repetiu com sucesso por caminhos totalmente distintos, destacou o estudo.