O tiktok e o instagram, sorvedouros de tempo e de neurónios, têm muito conteúdo sobre a Batalha de Ourique. Recorrendo a um sobrenatural exuberante, e sem medo do anacronismo, os seus criadores descrevem a batalha ao serviço de uma exaltação nacionalista que faz o Livro de Leituras da 3.ª Classe de 1943 parecer um manual politicamente correcto dos nossos dias.
Se ascendermos ao patamar da cultura média, Ourique aparece sob uma outra luz, muito diferente. Artigos de divulgação, alguns penosos de ignorância, insistem que tudo se perdeu nas brumas da memória e que se trata apenas de um “mito fundacional”, como Viriato ou os Lusitanos. Com característica leviandade, os geradores de texto de IA reciclam estas ideias falando da “lenda”, do “mito” ou do “mistério” de Ourique.
Com perfeita fidelidade ao nosso tempo, estas plataformas vulgarizam em minutos uma discussão que se arrastou durante décadas em páginas solenes e elaboradas. A chamada Polémica de Ourique começou em 1846 com a publicação da História de Portugal de Alexandre Herculano. O autor deste grande monumento historiográfico mostrava que a aparição de Cristo em Ourique era uma tradição tardia, surgida séculos depois da batalha e da qual as primeiras fontes não guardavam sinais. Tal como a batalha, a Polémica de Ourique teve um vencedor claro. Apesar da inferioridade numérica, Herculano e mais tarde o arabista David Lopes desbaratam uma horda de retóricos patriotinheiros.
Longe das polémicas, a investigação foi avançando. Mostrou-se que Afonso Henriques assumiu o título de rei meses depois de Ourique. A historicidade da batalha foi reforçada por fontes inéditas identificadas por diferentes autores. Heraldistas mostraram a associação de Ourique com as que são ainda hoje as armas de Portugal. A análise das fontes muçulmanas permitiu esclarecer as lideranças do lado dos mouros e a sua manobra inicial. Não se pode esquecer os conhecimentos mais seguros e novas edições das crónicas. Por fim, deve-se mencionar os importantes ensaios sobre a realeza e o culto de Afonso Henriques que já aproveitaram muita desta pesquisa. Infelizmente, num artigo desta dimensão não é possível indicar todos os nomes. Em liberdade, sem coordenação, sem agenda, estes e outros investigadores permitem empreender uma crítica histórica da batalha, com muito mais segurança do que Herculano há 18 décadas.
O primeiro passo é conhecer a dimensão da batalha a partir das fontes mais antigas. Estamos, como pensaram Alexandre Herculano e David Lopes, diante de uma escaramuça airosa que as gerações futuras engrandeceram? Não. Na sua linguagem lacónica, as primeiras narrativas reconhecem a Ourique um carácter memorável. A Vida de S. Teotónio (escrita por volta de 1162) fala de uma vitória miraculosa sobre cinco reis com hostes “incontáveis” vindas de aquém e além-mar, enquanto outros Anais falam de uma “grande batalha”. Como não poderia deixar de ser, o adjectivo “grande” tem uma grande amplitude de sentidos. Uma batalha pode ser grande pelas suas consequências, pela dimensão da vitória, pelo brilho militar, ou pela dimensão das forças envolvidas ou por todas estes dados em simultâneo.
David Lopes e Herculano tinham razão ao negar significado estratégico a Ourique. Em 1137, as guardas avançadas portuguesas (Leiria e Tomar) foram atacadas. Um ano depois de Ourique, em 1140, os Almorávidas recuperaram a iniciativa e voltam aos mesmos alvos. “A Oeste nada de novo”, poder-se-ia dizer. Porém, a grandeza na batalha não estava no significado militar, mas no impacto que causou aos contemporâneos. É o que as primeiras fontes implicam.
As razões para o renome de Ourique podem ser apreendidas através da sua descrição táctica inserida nos chamados Anais Portugueses Velhos. Os portugueses foram surpreendidos e cercados por um inimigo mais numeroso que, como hoje sabemos, Afonso Henriques julgava longe, perto de Toledo. A inteligência da manobra muçulmana é de algum modo reflectida na única fonte árabe que menciona este combate. Com uma carga vitoriosa, a situação táctica desvantajosa transfigurou-se num triunfo completo, com o saque do campo inimigo. No entanto, os cépticos encontram neste relato os primeiros sinais de mitificação da batalha: além das incertezas sobre a chefia islâmica, a presença de mulheres a combater e os cinco “reis”. Na verdade, estas afirmações até confirmam a historicidade do relato. Os reis não são um exagero: os muçulmanos peninsulares usavam o termo árabe ra’îs (origem da palavra portuguesa “arrais”) com um significado preciso de chefe das forças militares de um território (jund) e por extensão desse mesmo território. A menção às mulheres combatentes também comprova a historicidade do relato, já que satisfaz o chamado “critério do embaraço”. Se a ideia era exaltar o vencedor, por que razão inventar que a vitória foi obtida sobre mulheres? A presença de mulheres no acampamento inimigo explica-se pelo facto de os berberes recrutarem clãs inteiros e como tal, traziam as famílias com eles. Como a batalha terminou com o saque do acampamento inimigo, é natural que esta presença surgisse nos testemunhos da batalha.
Há ainda mais aspectos que podem ser alegados para provar historicidade da batalha e a sua localização, bem como a sua associação às quinas ou ao título de rei. Quem confirma este conjunto de acontecimentos é, por vias indirectas, precisamente o papado. Os papas do século XI e XII não tinham grande entusiasmo por reis auto-proclamados, mesmo que validados por portentos sobrenaturais e proezas militares contra os inimigos da fé. A Ourique siciliana (Cerami, 1063), a vitória de Mogyorod na Hungria (1074) ou a Batalha do Rio do Cão (em 1100) são casos comparáveis em que vitórias ratificadas por visões e milagres não chegaram para o reconhecimento papal. Porém, em 1179, surge a famosa bula Manifestis Probatum Est em que o Papa Alexandre III concede que décadas de árduos combates (nem sempre felizes) demonstravam com “provas manifestas” a dignidade régia de Afonso Henriques. Embora a bula não mencione Ourique, o facto de ter sido emitida 40 anos depois da mesma é sugestivo. Não foram quatro as décadas que o Povo Eleito teve de penar, de armas na mão, até chegar à Terra Prometida?
O mito é uma narrativa que confere sentido às circunstâncias vividas. Ao tomar Ourique como uma lenda, o presente afirma o seu mito: dominados por credulidade irracional, os nossos antepassados eram facilmente manipuláveis por fantasias. Para desmantelar este mito é necessário acompanhar o labor paciente de quatro gerações de historiadores que permite interpretar de uma forma crítica o significado dessa vitória improvável e que aqui cito sem nenhuma ordem: Rui de Azevedo, Lindley Cintra, Marquês de Abrantes, José Mattoso, Lurdes Rosa, Cunha Saraiva, Botelho da Costa Veiga, Luís Amaral, Mário Barroca, Inês Lourinho, Filipe Alves Moreira, Alfredo Pimenta, Martim Velho, Aires do Nascimento e Augusto Ferreira do Amaral. A este respeito, vale a pena mencionar uma aparição de Jesus, uma perfeitamente documentada, porque ocorreu perante as câmaras e está visível no YouTube. Foi há um ano que Jorge Jesus ao receber o prémio Quinas de Ouro da mão da FPF esclareceu como Portugal e o seu escudo nascem da Batalha de Ourique. Paradoxalmente, esta versão convencional está mais próxima do significado de Ourique para os portugueses do século XII do que textos da cultura média que discorrem sobre o “mito fundador”.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]