Decorria o ano de 2004, estávamos em julho, e Santana Lopes assumia o cargo de primeiro-ministro, após a debandada de Durão Barroso para Bruxelas.
Portugal tinha perdido a final do Euro 2004 contra a Grécia duas semanas antes, e o novo governo tomava posse numa cerimónia onde pessoas tombaram em desmaio devido ao calor que se fazia sentir. O discurso do novo primeiro-ministro tinha folhas a mais e parágrafos repetidos (“coisas da informática”), e havia ministros e secretários de Estado a empossar que lá estavam sem saber quais eram as suas pastas e outros que lá não estavam porque não foram avisados da cerimónia.
O governo começou simbolicamente mal, mas ficou imediatamente pior com o processo de colocação de professores. Para o concurso nacional de 2004/2005 foi introduzido um novo sistema informático para mudar a forma como era feito: os professores deixavam de preencher formulários em papel e passavam a usar uma plataforma digital e online para manifestar as suas preferências.
O novo sistema tinha custado 600 mil euros (COMPTA), e, na tomada de posse, o governo já sabia que tinham sido detetados problemas e lentidão no seu funcionamento nos testes. O que se passou a seguir, durante os meses de verão até ao início das aulas em outubro, foi um caos de peripécias e má comunicação, que se tornou no caso mais lesivo para um governo que havia de durar muito pouco.
As aulas deviam ter começado a meio de setembro, mas o Ministério da Educação, liderado por Maria do Carmo Seabra, não conseguia colocar os professores nas escolas. Foram feitas declarações desastradas, conferências de imprensa mal preparadas, Santana aparecia todos os dias na TV onde quer que estivesse (até de Nova Iorque em frente à sede das Nações Unidas, a falar do concurso de professores em direto para o telejornal).
Perante as sucessivas listas de colocações que saíam com erros que obrigavam a repetir o processo, perante a pressão do ano letivo que tinha de arrancar, mas que não tinha professores colocados, foi chamada uma nova empresa (ATX Software), que resolveu o algoritmo de forma ágil e colocou os professores. As aulas arrancaram atrasadas, a 1 de outubro. O governo foi consumido pelos meses em que a incompetência técnica e comunicacional durou.
Obviamente que o concurso de professores tinha de passar a ser online e, apesar dos problemas desse primeiro ano, nunca mais voltou aos formulários em papel. A reforma avançou. Obviamente que o sistema de correção de exames tem de evoluir para se tornar mais eficiente e seguro, sem obrigar os professores a terem de levar resmas de exames para a sua própria casa. A reforma tem de avançar. Mas está novamente um governo do PSD a minar a confiança dos portugueses na sua capacidade de execução.
As similitudes são muitas: já havia problemas reportados que não foram corrigidos a tempo, uma boa faixa da população em sobressalto perante uma data-limite rígida, um processo de digitalização que precisa de sistemas bem preparados e testados mas que falham, comunicação política desastrada com o público. O direto do primeiro-ministro a partir do NOS Alive, com um néon da Solverde por trás, a falar da correção dos exames conseguiu mesmo ultrapassar qualquer momento de Santana naquele verão quente de 2004.
Tinha de ser assim? Não tinha. Estas mudanças podem ser tão evidentes na melhoria que trazem às vidas dos envolvidos (professores, alunos e comunidade) que seriam feitas com o apoio de toda a gente e aplaudidas após o resultado.
Para tal, teria sido necessário um sistema robusto, testado, assente num processo físico e numa plataforma digital bem desenvolvida e bem mantida. Mais uma vez, um novo processo entrou em funcionamento sem os problemas reportados nos testes/piloto resolvidos. O que já se sabe sobre o ecossistema de empresas aqui envolvidas e o âmbito da sua contratação não augura nada de bom para o profissionalismo que um processo desta sensibilidade exige. E também mais uma vez há novas empresas contratadas no pico da crise (Deloitte) para ajudar a resolver o problema em contrarrelógio, o que tem sempre mais custos para o contribuinte.
O ministro Fernando Alexandre é ideologicamente são, intelectualmente muito capaz e motivado para reformar o que é necessário para a melhoria da Educação em Portugal. É um dos ministros com mais potencial de entregar mudanças sérias na sua área, que façam Portugal avançar e que serão reconhecidas à frente, em contraste com boa parte do governo que integra.
Um ministro da República deve ter a visão estratégica para a evolução do país na área que tutela e a capacidade de garantir que as estruturas complexas e pesadas pelas quais é responsável político operacionalizam e implementam essa visão. Mas, mais uma vez, um ministro e um governo são apanhados num processo que é sobretudo de natureza operacional. Havia a lição de 2004: a alteração de um processo na Educação que mexe com os professores, alunos e famílias tem de arrancar completamente testada, suportada numa arquitetura confiável, e capaz de resistir e corrigir erro humano, que pode surgir na operação por incompetência, negligência ou dolo.
Apesar de mais um período de dor completamente evitável no arranque de um processo de digitalização na Educação, o caminho nunca é retroceder, e o que é mudado agora abre oportunidades para construir a seguir, melhorando a vida de todos (correções de exames confiáveis, rigorosas, objetivas, entregues escassos dias depois de os exames terem sido feitos). Querer avançar com reformas já não é mau, mas é preciso ganhar de vez a competência operacional no Estado para não falhar de forma caricata e trágica ao mesmo tempo, minando a confiança das pessoas e aumentando a resistência à mudança.