A promessa era de uma aldeia global, um infinito digital onde todas as vozes se cruzariam na praça pública da internet. A realidade, contudo, é mais distópica – em vez de uma ágora, construímos um arquipélago de ilhas isoladas, ligadas por pontes invisíveis que só nos conduzem a quem já pensa como nós, a quem tem o nosso rendimento, ou, pior, a quem o algoritmo decide que merecemos.

O que hoje chamamos de “redes sociais” são, na verdade, sofisticados sistemas de segregação algorítmica. Não se trata apenas da velha “bolha de filtro”, esse fenómeno ingénuo onde apenas nos era mostrado o que gostávamos. O que realmente enfrentamos é um modelo de negócio que recompensa a fragmentação social porque, no cálculo frio do Vale do Silício, divisão é sinónimo de envolvimento e envolvimento é sinónimo de lucro. O algoritmo não é um espelho neutro da sociedade – é um arquiteto ativo da nossa separação.

Se o século XX foi marcado pela segregação por muros de betão e leis explícitas, o século XXI ergue os seus muros com linhas de código. O fenómeno é tão subtil quanto perverso: a estratificação por interesse rapidamente se transforma em estratificação por classe.

Um estudo do Wall Street Journal (2021) revelou a crueldade desta nova ordem: enquanto aos utilizadores de classes mais abastadas o Instagram exibia um carrossel infindável de “casas de luxo” e investimentos, aos jovens de baixos rendimentos era servido um menu de “conteúdo de emagrecimento” e dietas restritivas. O algoritmo, qual porteiro digital, decide quem deve aspirar à riqueza e quem deve apenas aspirar a ser mais magro. É a estratificação do desejo automatizada.

Esta lógica estende-se também ao mercado de trabalho. Nos bairros mais pobres, os anúncios de emprego qualificado no Meta (Facebook Ads) são escassos, perpetuando a desigualdade geográfica. O LinkedIn, essa montra de ambição e exibição corporativa, já foi acusado de esconder vagas de alto salário a mulheres. Isto demonstra que algoritmo não é apenas enviesado, mas é um agente ativo na manutenção do status quo socioeconómico.

A polarização política, essa doença autoimune da democracia moderna, encontra nas redes sociais o seu esteroide anabolizante. O YouTube, por exemplo, não se contenta em mostrar-lhe o que procura, ele recomenda o passo seguinte na espiral da radicalização. Para manter o utilizador “viciado”, a plataforma empurra-o para vídeos cada vez mais extremos, de teorias da conspiração a discursos de ódio.

O caso de Mianmar, onde o algoritmo do Facebook foi acusado de amplificar o ódio contra a minoria rohingya, contribuindo para o genocídio, não é um erro de cálculo, é a prova de que a otimização para o envolvimento pode ter consequências literalmente mortais. O algoritmo, nesse contexto, transforma-se num megafone para a barbárie, um instrumento de apartheid ideológico que nos ensina a odiar o “outro” para que continuemos a clicar.

E por que razão este fenómeno não é debatido com a urgência que merece? A resposta é simples e satírica: a invisibilidade estrutural. A maioria dos utilizadores vive na ilusão de que está a navegar livremente, sem perceber que está enclausurada numa jaula dourada de likes e recomendações.

As plataformas insistem na falsa ideia de “neutralidade”, apresentando-se como meros “espelhos da sociedade”. Mas um espelho que decide o que reflete, e que distorce a imagem para manter o espetador colado, não é um espelho – é um manipulador. O Muro de Berlim Digital não é feito de tijolos, mas de código opaco, e a sua principal função é garantir que, quanto mais divididos estivermos, mais dependentes das plataformas seremos.

A nossa resignação não é uma opção. Se o problema é sistémico, a solução deve ser estrutural e, acima de tudo, prática.

As soluções controversas passam pela Auditoria Algorítmica Obrigatória, exigindo que as plataformas revelem publicamente como estratificam os utilizadores. Passam também pelas Cotas de Diversidade em Recomendações, forçando as redes a mostrar “conteúdos fora da bolha” (o equivalente a 20% de publicações de visões opostas, um choque de realidade forçado).

Mas a verdadeira revolução começa no indivíduo, na recusa em ser gado digital.

As soluções de resistência, que passam por migrar para serviços auto-hospedados  como o ProtonMail ou  Nextcloud, e redes federadas como o Mastodon, são o equivalente a abandonar o resort de luxo da Big Tech para cultivar a sua própria horta digital. A nível coletivo, a criação de redes locais offline-first como Briar e a participação em cooperativas digitais são a forma de organizar a Comuna digital, trocando o like pelo aperto de mão. No plano do contra economia, o uso de hardware rebelde PinePhone e a guerrilha de dados AdNauseam representam a poluição do poço de dados do Feudatário com lixo digital para sabotar o seu perfil.

A Guerrilha de Dados, por exemplo, através de ferramentas como o AdNauseam (que clica em todos os anúncios para sabotar o perfil de consumo), é o nosso pequeno acto de terrorismo digital, a nossa forma de dizer ao algoritmo: “Não sou o teu produto”.

A alternativa mais radical é a criação de Redes Sociais Públicas, uma espécie de “BBC das redes sociais”, sem fins lucrativos e com um mandato de serviço público.

Em última análise, a luta contra os guetos algorítmicos é a luta pela nossa própria autonomia. O Muro de Berlim Digital está a ser erguido à nossa volta, e a sua demolição não virá de um discurso inflamado, mas de um clique consciente. A conectividade global que nos foi prometida não pode ser sinónimo de segregação automatizada. Temos de escolher: ser o produto passivo da bolha ou o desertor ativo que procura a fronteira.