Nas últimas semanas os diplomas académicos multiplicaram-se. De repente, as redes sociais e a comunicação social ficaram inundadas de especialistas em estatística, epidemiologia e outras ciências. Acertar na data do pico da pandemia e no número de infetados virou concurso nacional. “Só em junho”, diziam os matemáticos. “É a meio de abril”, referiu a dada altura o primeiro ministro. “Será no fim de abril”, disse o presidente da República. “Foi no final de março”, noticiou a comunicação social.

Apesar da validade de todos os esforços, penso que é altura de fazer uma análise aprofundada sobre o verdadeiro motivo para tantas previsões diferentes e naturalmente falíveis. Em primeiro lugar, enquanto que um paper científico tem perto de 8000 palavras, uma notícia de jornal não passa muito para além das 1000. Com efeito, nunca foram descritos os pressupostos e as limitações de cada modelo de previsão. Numa situação de saúde pública como uma pandemia é impossível garantir uma estabilidade absoluta, pois os “ses” estão sucessivamente a alterar-se.

Naturalmente, durante as primeiras semanas da pandemia e do início da quarentena, também me dediquei à análise da informação que ia sendo disponibilizada pelas diferentes instituições internacionais e, em particular, pelo boletim diário da Direção Geral de Saúde (DGS).

Fi-lo, em primeiro lugar, por curiosidade natural sobre algo que afetou tanto as nossas vidas. Em seguida, para tentar partilhar as melhores informações com a minha família e amigos de forma a estarem bem preparados. Por fim, como professor de métodos quantitativos, senti-me na obrigação de ajudar os meus alunos de primeiro ano a entender melhor tudo o que se estava a passar. Devo até acrescentar que, de entre tantas coisas más que o novo coronavírus nos trouxe, a motivação dos alunos para estudar estatística talvez nunca tenha sido tão elevada.

Houve uma coisa que expliquei a todos e que até agora me parece mal compreendida pela maior parte da sociedade e, por isso, decidi escrever este texto para o partilhar. Começo então por uma verdade, com a qual o leitor não se deve assustar: o “número de casos totais confirmados” vai sempre aumentar, até atingir uma estabilidade. Esse número nunca vai descer. O indicador que nos deve guiar em relação ao “pico” é o “número de casos ativos”. E tenho sérias dúvidas que possa, de facto, ser estimado.

Passo então a explicar porquê. O número de casos ativos é calculado do seguinte modo: Casos ativos = Casos confirmados – (Recuperados + Óbitos)

Na figura seguinte, encontram-se as representações gráficas destas quatros variáveis, de acordo com os dados da DGS desde o dia 11 de março 2020 a 16 de abril 2020.

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Felizmente, é possível afirmar que a taxa de letalidade (não mortalidade!) é reduzida. Neste momento, situa-se nos 3,3% do total de casos confirmados. No entanto, o número de recuperados é igualmente reduzido (2,6%). Por simples dedução, percebemos que o número de casos ativos corresponde, neste momento, a 94,1% dos casos totais confirmados. Não é estranho o número de recuperados ser tão reduzido quando já passou mais de um mês desde o início da pandemia?

Para um caso ser considerado recuperado, é preciso ser dada a alta clínica, confirmada por ausência de sintomas, e realizarem-se dois testes para o coronavírus com resultado negativo. É aqui que se torna interessante juntar a esta análise o número de doentes internados. Como se pode ver pela figura seguinte, na primeira fase da pandemia, praticamente 100% dos casos confirmados ficavam internados. Com o aumento do número de casos, esta percentagem foi decrescendo e, desde meados de março 2020, que se situa sempre entre os 7% e os 10%.

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De acordo com o relatório da DGS a 16 de abril 2020, existem 17 719 casos ativos ((18841 casos confirmados – (493 recuperados + 629 óbitos)) e 1302 casos internados, o que significa que existem 16 417 (17 719 – 1302) casos ativos que foram enviados para casa ou “andam por aí”. Neste momento em que se fala tanto sobre o regresso à normalidade, a grande questão que se levanta é a seguinte: quais são os mecanismos de controlo que a Direção Geral de Saúde tem sobre estes 16 417 casos ativos?

Foi colocado nestes doentes um sistema de controlo por telemóvel ou uma pulseira eletrónica que indica quando saem de casa? Não será um risco demasiado elevado enviar estes doentes “clinicamente aptos e não microbiologicamente recuperados” para casa sem controlar que ficam efetivamente em casa até realizar os dois testes microbiológicos que têm de dar negativo?  A verdade é que continuam a ser veículos de transmissão. A solução teria sido mantê-los de quarentena em hotéis ou hospitais de campanha (estão vazios!) e só saírem depois do critério microbiológico.

Na verdade, receio bem que já se tenha perdido o “rasto” de muitos deles. Essa é a verdadeira razão para o número de casos recuperados ser tão reduzido, condicionando o verdadeiro número de casos ativos. Em consequência, quaisquer previsões sobre o pico só podem ser falhadas.

16 abril 2020