O caso da nadadora portuguesa Hannah Caldas, suspensa por cinco anos pela Federação Internacional de Natação (FINA) após recusar um teste de verificação de sexo, é o mais recente e gritante sintoma de uma crise que assola o desporto feminino: a participação de atletas transgénero que fizeram a transição de homem para mulher.
A suspensão de Caldas, embora formalmente baseada na recusa do teste, atira para o centro do debate a questão fundamental da justiça e da igualdade nas categorias femininas, um debate que, infelizmente, tem sido sequestrado pela histeria e pela acusação fácil de transfobia, em detrimento do senso comum e da ciência.
Não se trata de negar o direito de competir a quem quer que seja, incluindo pessoas trans. Eles devem, inequivocamente, ter o seu espaço. A questão é onde e contra quem competem.
A fisiologia masculina, mesmo após a terapia hormonal de transição, confere uma vantagem física esmagadora e inegável em relação às mulheres biológicas. Densidade óssea, estrutura esquelética, capacidade pulmonar, força muscular e, crucialmente, a exposição à testosterona durante a puberdade e a idade adulta todos estes fatores criam uma diferença de desempenho que não é meramente marginal, mas sim abissal. Não é transfobia, é biologia elementar.
Imagine-se o cenário: Cristiano Ronaldo decide fazer a transição e jogar na Seleção Feminina. Com o seu físico e treino, marcaria, sem esforço, 10 golos por jogo.
O exemplo, embora hiperbólico, serve para iluminar a loucura de colocar em competição directa duas categorias com bases fisiológicas tão distintas.
O desporto não é uma terapia de afirmação de identidade, mas sim uma competição justa. Quando a FINA anula os resultados de Hannah Caldas, a instituição demonstra, implicitamente, o reconhecimento da necessidade de manter a integridade da categoria, mas a suspensão é apenas o lado negro de uma regra que, no fundo, tenta proteger a categoria feminina.
O boxe, modalidade com um forte foco na segurança dos atletas, já deu provas de reconhecer esta disparidade.
Lembremo-nos do caso de uma pugilista trans que ganhou uma medalha nos Jogos Olímpicos; o título foi-lhe mais tarde retirado após a recusa da adversária em competir na final, temendo, justificadamente, um massacre face à desproporção física. Este é o espelho brutal da realidade: as mulheres biológicas são colocadas numa posição de desvantagem e, por vezes, até de risco físico, quando confrontadas com a força e performance masculina inerente.
Os factos e a ciência reiteram esta disparidade: a equipa feminina de futebol dos EUA, campeã mundial, perdeu um jogo-treino por números chocantes contra uma equipa de adolescentes masculinos de 15 anos. A própria Serena Williams, uma das maiores atletas femininas de todos os tempos, reconheceu a diferença de performance ao afirmar publicamente que, se jogasse contra Andy Murray, um tenista profissional masculino, “perderia por 6-0, 6-0 em cinco ou seis minutos, talvez 10 minutos.”
A solução é simples e sensata, mas obstinadamente ignorada: criar uma categoria ou liga para atletas transgénero. Eles competem, têm o seu palco, e as mulheres biológicas continuam a ter a sua categoria protegida. Este é o caminho da inclusão sem sacrificar a equidade.
Vivemos um tempo em que as construções sociais e os sentimentos individuais são elevados acima dos factos biológicos e da experiência partilhada.
A honestidade intelectual é trocada pela virtude de sinalizar, e quem se atreve a apontar a evidência científica é imediatamente ostracizado.
Esta inversão de valores, onde a biologia é descartada como irrelevante em nome da “inclusão” cega, abre uma clivagem perigosa na sociedade e, sobretudo, no desporto. Se não defendermos as categorias femininas com base na biologia, assistiremos à sua lenta e inevitável extinção.
E isso, não é justiça. É a derrota da razão.