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Ainda nos lembramos das notícias do início de janeiro, de um tal “vírus novo” que apareceu na China, longe de se imaginar que este poderia chegar até nós. Relatos e imagens aterradoras começaram a surgir todos os dias, vindos de lugares tão próximos que nos fizeram temer o pior.

O país preparou-se (ou não) para lutar contra o novo coronavírus que todos desconheciam, serviços de saúde paralisaram e canalizaram-se todos os recursos físicos e humanos para receber os doentes Covid. Houve mesmos serviços que fecharam portas, algo inimaginável até então.

O SNS resolveu suspender praticamente toda a atividade assistencial para se preparar para receber os doentes Covid e os serviços de Oftalmologia não foram exceção. Estes reorganizaram-se, de forma a dar resposta a situações urgentes, a ordem era tratar o que fosse considerado urgente devido à escassez de recursos materiais e humanos. Milhares de consultas, cirurgias e tratamentos foram cancelados. Uma das áreas que mais preocupação despertou foi a da retina, pois esta abarca patologias como a degenerescência macular da idade e a retinopatia diabética, doenças que quando não diagnosticadas e não tratadas precocemente têm um potencial elevado de perda irreversível de visão. O Colégio de Especialidade e a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia emanaram diretrizes orientadoras da atividade nesta fase, mas nem sempre foi fácil cumpri-las.

Além da redução da atividade assistencial, muitos doentes deixaram de comparecer às consultas, aos tratamentos e mesmo de recorrer ao Serviço de Urgência em casos graves de perda de visão devido ao clima de medo que se instalou na sociedade em relação à segurança dos hospitais.

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Tal como já foi dito, doenças como a degenerescência macular da idade, retinopatia diabética ou o descolamento de retina, se não forem diagnosticadas e tratadas precocemente têm um potencial de cegueira elevado, levando a um impacto na vida pessoal, familiar, e mesmo na sociedade, com custos sociais elevados.

Os hospitais e os serviços de Oftalmologia procuraram reorganizar-se ao longo do tempo de forma a que estes fossem considerados um “local seguro” para os doentes. A criação de circuitos independentes, reorganização de salas de espera, espaçamento de consultas, triagem mais eficaz dos doentes, realização de múltiplos procedimentos numa única ida ao hospital e a utilização da teleconsulta, sempre que esta fosse possível, foram algumas das soluções encontradas.

Ainda não se sabe qual o impacto da pandemia na saúde visual dos portugueses, até porque enquanto se escreve este artigo a pandemia continua entre nós com um recrudescimento preocupante. Teme-se que centenas de doentes que deixaram de ir às consultas e aos tratamentos apresentem, neste momento, perdas irreversíveis de visão.

Os serviços e os seus recursos humanos, por muito boa vontade que tenham, não conseguem recuperar os doentes “perdidos” e ao mesmo tempo dar resposta às solicitações diárias, e muitas vezes dramáticas, que lhe batem à porta. É necessário um plano credível, estruturado e pensado por parte do Ministério da Saúde para fazer face ao momento atual e futuro. Também será fundamental a consciencialização de que os hospitais e os serviços de Oftalmologia são locais seguros, onde os doentes devem recorrer sempre que necessário, pois tem de existir visão para além do Covid.