No metro de Pequim fazem-se anúncios nas paredes dos túneis entre estações. Imagens sucedidas às outras como aqueles bloquinhos que nos davam em pequenos, que folheados muito habilmente na ponta do dedo, criam movimento através de sobreposição de imagens. Ilustravam assim a lógica do cinema (tutoriais da era pré-youtube).

Enquanto me deixava impressionar com a genialidade da ideia de dois bailarinos
fazerem movimentos muito próximos de um qualquer Lago dos Cisnes para incitar à compra de uma mala, olhei à minha volta à procura de um cúmplice para partilhar a admiração. Não encontrei. É que, aquela performance estava a ser montada para uma audiência de gente com o mundo na mão.

Esses pequenos dispositivos, onde se empurra de baixo para cima eternamente, não se chegando nunca ao fim do poço de conteúdos, mais ou menos acrescentados de valor útil.

Veja-se, eu não sou pessoa de defender a vida no paleolítico. Aliás, sou assumidamente fã desta tecnologia que me serve para ouvir música, livros e podcasts, ler notícias, chegar aos sítios, passar conteúdos para a minha televisão, anotar ideias no momento da sua passagem, antes que se me desvaneçam e claro, comunicar com os habitantes do meu mundo, por entre momentos ocasionais de cusquice em vida alheia.

No entanto, e voltando ao Lago dos Cisnes, com todas estas possibilidades, em tamanho polly pocket, a competição torna-se tramada. É preciso um mundo barulhento e explosivo para conseguir lutar pela atenção dos olhos que têm, sem sequer mexer o lugar de foco, uma infinidade de vídeos de gatinhos às cambalhotas (conteúdo de alta popularidade pelo que consegui espreitar nos meus vizinhos de carruagens. Ele há clichés tramados.).

E aí, nessa minha admiração solitária (e forçada, há que admitir, já que eu era a única turista sem dados móveis), percebi que já não estamos sabemos estar. Sem mais. Sem nada na mão e nem na cabeça. A nossa atenção tem que ser dividida porque o tempo é para ser aproveitado.

A caminho do trabalho lê-se, ouve-se música ou dá-se um mergulho no poço. A correr vamos a ser motivados por música ritmada ou informados por gente a explicar assuntos que domina. Em casa distraímo-nos conforme a preferência de cada qual.

As valências desta bipolaridade são indiscutíveis, fala a pessoa que atualmente acompanha três livros de uma vez, um eletrónico, um áudio e outro com folhas. Mas a minha passagem no impressionante metro alheio trouxe-me à superfície uma daquelas evidências que o constante preenchimento dos tempos modernos empurra para baixo. O valor do nada.

Shunmyo Masuno, monge japonês que tem ocupado as páginas do meu livro número três, dizia outro dia, todas as coisas começam do nada. O nada tem muito para descobrir. Apercebi-me que é capaz de não ser mal jogado deixar uns buracos vazios no preenchimento dos meus dias. É que, segundo a maior enciclopédia moderna, a pessoa mais feliz do mundo tem como ocupação ser monge.