Lembram-se de quando o prof. Marcelo prometia, pela sua saudinha, não voltar a comentar a actualidade logo que deixasse Belém? Ele também não se lembra, por isso comenta o que calha a cada oportunidade. Há dias, esteve num colóquio em Aveiro e disse o seguinte: “Nós somos a Europa, mas somos vistos como sendo uma ilha no meio do Atlântico. Nós somos, sobretudo, seguros e confiáveis (…) Encontramos economistas, financeiros, banqueiros e tal a dizer que grande bigodaça que vocês estão a dar, porque de facto estão a conseguir, que se possa ter confiança e ter segurança na realidade portuguesa. Nós já intuímos isso, sabíamos isso. Mas agora é indiscutível”. E de seguida acrescentou: “Eu vou a qualquer reunião internacional e agora vou como ‘outsider’ (…) mas gosto de ouvir nos aviões em que venho dizer, ah, eu desloquei-me agora para Portugal, porque é para decidir e é para investir numa coisa e tal, e estou a pensar num projeto e tal.”

É curioso e tal que eu faça uns voos internacionais e tal e nunca tenha ouvido tais proclamações e tal. É possível que se deva ao facto de viajar rodeado de pelintras em “turística” e não de economistas, financeiros, banqueiros e tal. Mas a hipótese mais provável para não ouvir semelhantes louvores à “bigodaça” portuguesa é os louvores jamais terem sido ditos, ou apenas terem sido ditos por interlocutores que desesperadamente procuravam livrar-se daquele sujeito que, inquieto no lugar 12C, dizia em voz demasiado alta ser ex-chefe de Estado e tentava arrancar-lhes elogios ao país. Como costuma acontecer nos interrogatórios a cargo de polícias inflexíveis, uma pessoa acaba a confessar o que eles quiserem: “Portugal?”, despacha atrapalhado o “banqueiro” que na verdade é cabeleireiro de profissão e retornava das férias em Albufeira, “um espectáculo. Um sonho. A humanidade tem muito a aprender convosco. E agora peço-lhe desculpa já que tenciono terminar o ‘Barbie’ antes de aterrar em Bruxelas.”

Embora o prof. Marcelo seja um ser peculiar, a essência da sua recorrente ladainha “patriótica” não difere da quase totalidade dos primeiros-ministros que temos tido, hoje o dr. Montenegro, ontem o dr. Costa, uns anos antes o “eng.” Sócrates. Saltei deliberadamente Pedro Passos Coelho na medida em que, desde épocas imemoriais, foi o único, e aparentemente o último, governante capaz de confrontar os portugueses com factos. Os restantes oferecem-nos alucinações, descabeladas mentiras acerca do “sucesso” pátrio, tão potente que deixa o mundo pasmado e, afinal, invejoso. Salvo a referida excepção, Portugal não dispõe de estadistas, e sim de vendedores de fancaria. E quanto mais óbvia é a fancaria mais saída tem. E mais pelintras ficamos. Se toda a governação abusa da propaganda, aqui a propaganda substituiu completamente a governação, que sobrevive para asfixiar tudo em redor. Mesmo numa Europa em desvario e queda, conseguimos a proeza de empobrecer por comparação, a proeza de olharmos para baixo e já só vermos a Grécia e a Bulgária. Isto enquanto ainda vemos alguém.

Cá dentro, o que vemos são embusteiros, socialistas tímidos ou descarados dispostos a atropelar os habituais limites da intrujice política para transformar o poder numa máquina de cobrança de impostos, distribuição de empregos, “gestão” dos lendários “fundos” e, nos intervalos da propaganda, lançamento de humilhantes e falsas esmolas de modo a mitigar a crise que, eles fiquem ceguinhos, não existe. E para reduzir os sucessivos governos a monólitos valentemente insusceptíveis de uma reforma, uma mudança, um rasgo e um risco que beliscassem a desgraceira em curso e incomodassem as sondagens. Se for necessário descer à ignomínia da analogia futebolística, à imagem dos nossos eruditos líderes, desço: em equipa que perde não se mexe. Ou mexe-se para que a equipa continue a perder.

É disto que o meu povo gosta? Corrijo a pergunta, a fim de evitar generalizações: é disto que uma quantidade significativa de eleitores gosta? Receio que sim. Como no Sísifo de Camus, é preciso imaginar os portugueses felizes, ou mínimo resignados em passar os dias a contornar rotundas de cidades tristes no regresso do trabalho na câmara ou no escritório, a caminho de um serão com a Netflix e o sonho do fim-de-semana com bola e restaurante para fotografar a comida e despejar o pastiche de alegria nas “redes”. Se os miúdos estiverem distraídos com o telemóvel e os graúdos esquecidos dos encargos no fim do mês, que um milagre talvez impeça de chegar, está tudo bem.

Não está nada bem. Claro que não faria sentido sonhar com a nação pujante e digna de admiração que os embusteiros agitam para consumo das massas, infelizmente eficaz. Mas podíamos ser, e estar, um bocadinho melhor do que somos e estamos. Acontece que o processo implicaria tempo, moderado sofrimento e imensa coragem. Por azar, coragem é o que a classe política não possui e sofrimento é o que os cidadãos não toleram, nem sequer em nome do “futuro” com que apenas fingem preocupar-se sob a retórica indolor dos cataclismos vagos ou longínquos ou fictícios. Tempo é o que nos sobra, incluindo para recordar o cliché de que vivemos acima das nossas possibilidades. O problema é que jamais nos ocorre elevar as possibilidades, embora sejamos exímios a adaptarmo-nos a uma vida que desce – e a torcê-la para disfarçar a descida. Perante a hipótese de, com sacrifício, “isto” poder ser melhor, consolamo-nos com a suspeita de que, sem esforço nenhum, isto podia ser pior. É uma hipótese cujo acerto comprovamos ano após ano.