Até ao dia 27 de maio, data em que o Observador organiza a Cimeira das Cidades, desafiamos alguns especialistas a escrever sobre os desafios das urbes do futuro. A entrada no evento é gratuita, mediante inscrição, que pode ser feita AQUI.

A mobilidade será um dos principais desafios das cidades do futuro. Não por falta de soluções tecnológicas — cada vez mais sofisticadas —, mas pela dificuldade de conjugar três realidades interdependentes: a urgência ecológica, a integração digital e a convivência entre os diferentes modos de transporte. O verdadeiro desafio não é imaginar o futuro da mobilidade, mas fazê-lo possível, acessível e funcional no presente.

A sustentabilidade deixou de ser uma escolha para se tornar uma direção obrigatória. A legislação europeia, a pressão regulatória e a consciência climática definem já o ritmo da mudança. Mas nem todas as cidades partem do mesmo ponto de partida. A transição é desigual, e a velocidade imposta pode ser excessiva para algumas economias urbanas ou realidades sociais.

Projetos como “The Line” na Arábia Saudita são o espelho disso: uma visão planificada e extrema da cidade do futuro, onde a mobilidade se quer invisível, automatizada, totalmente integrada. Mas será esse modelo replicável? Escalável? Adaptado à escala humana? Muitas vezes, o mais impressionante no papel revela-se irrealista quando confrontado com o tecido urbano, económico e cultural real.

Na minha reflexão sobre mobilidade, recorro muitas vezes a um conceito que chamo de transição automobilística. Envolve quatro mudanças simultâneas:

  • uma transição económica, que obriga as famílias a reverem prioridades e orçamentos;
  • uma transição ecológica, essencial para reduzir emissões e repensar deslocações;
  • uma transição tecnológica, marcada pela digitalização e eletrificação;
  • e, talvez a mais desafiante, uma transição comportamental, onde os cidadãos reformulam hábitos e valores ligados ao transporte.

Estas transições não acontecem à mesma velocidade, nem com a mesma intensidade. É por isso que a digitalização e os modelos MaaS (Mobility as a Service) têm um papel crítico: permitem coordenar, adaptar e otimizar recursos. Mas não podem ser vistas como um fim em si mesmas. A tecnologia só faz sentido se estiver ao serviço da simplicidade, da eficiência e da inclusão.Por fim, há uma dimensão frequentemente esquecida: a convivência. A cidade do futuro terá de articular veículos privados, transportes públicos, serviços profissionais e soluções partilhadas — não como rivais, mas como peças complementares de um mesmo ecossistema.

O sucesso da mobilidade urbana dependerá tanto da capacidade dos decisores públicos e operadores como do envolvimento dos próprios cidadãos. Todos temos um papel a desempenhar nesta transformação coletiva. Estamos prontos para tomar decisões corajosas que priorizem o coletivo sem esquecer o que é operacionalmente possível?

José Luis Barbajosa é economista, especialista em mobilidade, supply chain e transformação digital. Foi CEO da Norauto Portugal, liderando projetos de inovação e sustentabilidade no setor automóvel.