Há um elefante no meio da cidade. A gestão de resíduos continua a ser tratada como um “mal necessário”, como se a cidade ideal fosse aquela onde não há lixo à vista. Precisamos de olhar para os resíduos (em particular, para as embalagens) de forma diferente e valorizar aquilo que, à primeira vista, parece não ter valor. Só assim conseguiremos integrar a gestão de resíduos no planeamento urbano, tornando-a parte da solução para cidades mais funcionais, habitáveis e inteligentes.

Na verdade, uma cidade que não sabe o que fazer aos seus resíduos é uma cidade que já desistiu de planear o futuro. Porque planear o futuro — com mais pessoas, mais consumo e mais fluxos — exige sistemas circulares. E isso começa no ecoponto. Ou, idealmente, antes dele.

Separar embalagens não é um gesto menor — é um ato de planeamento urbano. Um ato de cidadania que permite à cidade (e ao País) recuperar recursos, poupar espaço, reduzir a pegada carbónica e até poupar dinheiro. Mas, para isso, o sistema de recolha tem de ser ágil e funcional.

Para que a reciclagem de embalagens seja uma prática acessível, precisamos de garantir conveniência: ecopontos disponíveis, próximos e modernos. O recurso a tecnologias como a sensorização permite otimizar a recolha de resíduos, evitar ecopontos cheios e tornar o processo mais eficiente. Afinal, ninguém quer desviar-se do seu caminho para reciclar, por isso, a reciclagem tem mesmo de estar ao virar da esquina.

Não basta colocar contentores e ecopontos. É preciso planear e usar a tecnologia. É no cruzamento entre mobilidade, resíduos e inovação que reside uma grande oportunidade para as cidades. Para isso, pensemos a cidade como um ecossistema onde cada elemento está interligado.

Além disso, acredito que é necessário discutir a velocidade com que estamos a percorrer o caminho. E em Portugal, estamos demasiado devagar — precisamos de muito mais ambição para tornarmos o país mais sustentável.

Na Sociedade Ponto Verde acreditamos que a resposta a este desafio está na inovação e na colaboração. Precisamos de um choque tecnológico no setor, com mais investimento em ferramentas digitais, inteligência artificial e soluções como o pay-as-you-throw ou a gamificação, que recompensem comportamentos corretos e promovam a participação ativa dos cidadãos.

Temos exemplos de boas práticas no terreno e a SPV, enquanto hub de inovação, tem apoiado projetos que apostam na investigação, no ecodesign, na digitalização e na melhoria contínua do serviço prestado aos cidadãos.

Por outro lado, temos de olhar para o crescimento do turismo como um fator determinante. Os dados provisórios de 2024 registam 31,6 milhões de hóspedes, dos quais 19,4 milhões estrangeiros, ​​​​​​​​​​​e um total de 80,3 milhões de dormidas, também cabendo aos estrangeiros a maior fatia (56,4 milhões). Significa que somos atrativos e que sendo este um setor crucial para a economia do país, tem de ter subjacente um estímulo contínuo à valorização dos territórios.

O mundo não pára. Portugal tem mudado muito nos últimos anos e tem tido várias transformações que é preciso discutir e analisar. Temos, hoje, um país que encontrou no turismo uma enorme capacidade de geração de riqueza. É verdade que o turismo tem impactos muito positivos na economia, mas também é verdade que tem outros impactos, que temos de tratar, estudar e conhecer melhor.

Não podemos continuar a planear a cidade só para quem vive nela. Se queremos que o visitante recicle, temos de lhe dar condições. Campanhas de sensibilização dirigidas ao turismo, traduzidas em várias línguas; infraestruturas nos pontos mais críticos; e uma comunicação clara e acessível são indispensáveis (e urgentes).

Ao mesmo tempo, acredito que também devemos olhar para soluções que envolvam mais quem visita as nossas cidades. Por exemplo, uma taxa turística que contribua para os custos acrescidos com a limpeza urbana e a reciclagem de embalagens pode ser uma forma de o turismo se ajudar a si mesmo, ajudando simultaneamente a cidade a ser a sua melhor versão — tanto para quem lá vive, como para quem a visita.

Não queremos cidades que escondem os seus resíduos. Queremos cidades que os tratem bem. A Sociedade Ponto Verde está comprometida com isso, mas nenhuma entidade sozinha consegue fazer mudanças significativas. Precisamos de colaboração, de municípios com coragem, empresas com criatividade e cidadãos com vontade.

Os resíduos são o espelho da cidade. Mostram como vivemos, o que valorizamos e o que desperdiçamos. Os resíduos não podem ser um incómodo para quem passa, têm de ser vistos como um ativo.

Porque uma cidade que sabe o que fazer com os seus resíduos, sabe o que fazer com o seu futuro.