No rescaldo da Cimeira das Cidades, perante tudo o que foi discutido, importa refletir sobre o futuro da mobilidade urbana. Assim, nos próximos dez anos, as cidades vão enfrentar transformações significativas nos sistemas de transporte, impulsionadas pela tecnologia, pela sustentabilidade e pela necessidade de melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes.
Em primeiro lugar, a integração de tecnologia inteligente continuará a moldar a mobilidade urbana. Sensores, big data e inteligência artificial vão permitir o desenvolvimento de sistemas de transporte mais eficientes e personalizados. Estas tecnologias serão fundamentais para a gestão do tráfego em tempo real, reduzindo congestionamentos e otimizando trajetos do ponto A para o ponto B.
A sustentabilidade continuará a ser uma prioridade inquestionável, pois o nível de emissões atual não é aceitável. A descarbonização dos transportes ganhará ainda mais força. Veículos elétricos, a hidrogénio e movidos a outros combustíveis verdes vão dominar tanto o transporte público como o privado. A expansão das infraestruturas de carregamento rápido é essencial para suportar a crescente procura, assim como a disponibilidade resiliente das redes elétricas e de abastecimento sustentável. Além disso, os modos de mobilidade ativa, como andar a pé e de bicicleta, terão um papel central, com redes seguras de ciclovias e zonas pedonais a serem ampliadas. E, com isso, uma virtuosa correlação com vidas mais ativas e mais saudáveis.
Em segundo lugar, embora algumas previsões apontem para uma drástica diminuição do uso do automóvel em áreas urbanas, ele não irá desaparecer completamente devido às preferências declaradas dos cidadãos.
Os veículos individuais serão mais eficientes e partilhados, com a ascensão de carros autónomos e conectados que vão redefinir a experiência de condução (por exemplo, os robotaxis, mas não só), permitindo que interajam diretamente com as infraestruturas e outros utilizadores da infraestrutura rodoviária.
Naturalmente, como já acontece em algumas malhas urbanas em países mais desenvolvidos, o uso de automóveis poderá ser regulado graças à introdução de políticas de preços dinâmicos. Esta abordagem ajustará os custos de acesso e de estacionamento com base na hora do dia e na procura, incentivando alternativas de transportes mais sustentáveis, atentos aos casos de uso e segmentos específicos (por exemplo, necessariamente diferentes para uma família com filhos pequenos versus um jovem que se desloca para a escola ou para o trabalho). A condução autónoma diminuirá também o espaço urbano dedicado ao estacionamento de veículos, libertando-o para outras funções.
Em terceiro lugar, e devido ao inevitável crescimento das cidades, o espaço físico será desafiado com outras soluções inovadoras. A mobilidade aérea urbana, outrora relegada à ficção científica, está a emergir como uma realidade entusiasmante. Veículos aéreos elétricos de descolagem e aterragem vertical (eVTOLs) vão revolucionar o transporte em áreas densamente povoadas, proporcionando viagens rápidas, sem congestionamentos, entre bairros, cidades e pólos urbanos satélite como zonas de escritórios ou cidades universitárias.
Apesar dos desafios regulatórios, tecnológicos, de cibersegurança e de infraestrutura, várias empresas já estão a testar protótipos de táxis aéreos. Estes veículos, operados autonomamente ou com pilotos, poderão complementar os sistemas urbanos, especialmente em megacidades onde o espaço terrestre será cada vez mais limitado. A integração desses veículos vai requerer novas formas de planeamento urbano, incluindo a criação de “vertiportos”.
Finalmente, a conectividade digital será o coração da mobilidade urbana do futuro. Sistemas interoperáveis terão de integrar diferentes modos de transporte em plataformas digitais, permitindo que os utilizadores planeiem e paguem viagens multimodais de forma simples. A mobilidade como serviço é um incentivo à oferta de soluções práticas, flexíveis e acessíveis a todos, promovendo uma maior inclusão, fundamental para uma melhor harmonia entre habitação e transporte. Para tal, exigirá um planeamento mais antecipado da rede de transportes e uma boa cooperação entre o setor público e o sector privado na realização dos investimentos necessários a uma oferta de qualidade, com segurança, conveniência e conforto.
Em suma, o futuro da mobilidade urbana promete cidades mais habitáveis, mais limpas e mais conectadas, centradas na qualidade de vida das pessoas. No final, sobrepondo-se às tendências, o movimento continuará a simbolizar a essência da vida e um fator determinante da felicidade humana.
Como escreveu Fernando Pessoa, “Viver não é necessário; o que é necessário é criar.” E criar é, em última análise, mover-se — física, emocional e intelectualmente — rumo a novas possibilidades. Tenhamos a coragem de não ficar parados e concretizar essas possibilidades.
Eduardo Ramos é CEO da Via Verde e membro do Conselho de Administração da Brisa. Licenciado em Economia, é professor convidado da Universidade Católica de Lisboa e da Nova SBE. É membro do Clube dos 52 do Observador.