O trauma é uma ferida na memória. E Portugal, na sua longa e sinuosa caminhada, carrega uma cicatriz profunda. A recente celeuma à volta do 25 de Novembro de 1975 a estabilização da democracia contra os ímpetos radicais do PREC é apenas o mais recente sintoma de uma nação que, sob a capa da modernidade, renega as datas que lhe deram forma.
A obsessão com o número 25 (Abril, Novembro) esconde um vazio perturbador: a quase indiferença com o 5 de Outubro de 1143, a data fundacional, o momento em que um condado se tornou nação, formalizado pelo Tratado de Zamora. Será o número ‘5’ o problema na matemática da memória coletiva? Talvez. Mas o que é verdadeiramente atroz é que a cidade de Lisboa, a capital, nem sequer celebra o 25 de Outubro de 1147, o dia em que D. Afonso Henriques a conquistou aos mouros, reintegrando Olissipo então chamada al-Ushbuna pelos mouros, herdeira do antigo nome romano no projeto nacional.
O Pai Traumatizado e o Império Ignorado
Um pai com traumas nunca se cura e, por inerência, nunca ensina os seus filhos a honrar o seu passado com genuína convicção. Portugal, outrora o embrião de uma força global, parece ter optado pelo silêncio envergonhado.
Honrar a História não é saudosismos fáceis, nem fascismo, nem o eco da “velha senhora”, como logo se apressam a zurzir alguns “canhotos”. Honrar o passado é reconhecer que aquele pequeno Condado que se tornou Nação não apenas “deu novos mundos ao mundo”, como iniciou algo monumentalmente mais vasto: a primeira globalização à escala planetária.
Portugal foi o primeiro império à escala global, ligando quatro continentes numa teia comercial, cultural e marítima.
Portugal iniciou o pré-capitalismo mundial, criando as rotas de comércio de longa distância e as estruturas financeiras complexas que seriam herdadas e otimizadas pelos holandeses e ingleses. Foi o pé-conceito, a fundação prática de um sistema económico que ainda hoje domina.
A História como Tabu e a Nação Oca
Quando o debate sobre a identidade portuguesa sobre o pioneirismo, a coragem marítima, a fundação e a Reconquista se torna um tabu, e a simples menção a estes factos históricos é tachada de nostalgia perigosa, a nação esvazia-se.
Ignorar as efemérides que nos moldaram, como o 14 de Agosto de 1385 (Aljubarrota, a confirmação da independência), ou o 21 de Agosto de 1415 (Conquista de Ceuta, o salto inicial para a expansão), significa negar os alicerces.
Um país que não honra os seus que não celebra o momento em que a sua capital se tornou portuguesa, nem o dia em que a sua autonomia foi cimentada é um pais oco e vazio. É uma entidade que só vive de ecos modernos, de narrativas importadas e da superficialidade do momento.
Um país que só ouve ecos não sobrevive, porque se esquece da voz original que o fundou.
A Grande Tarefa
A tarefa das gerações atuais não é julgar a História com a moralidade do século XXI, mas sim integrá-la e compreendê-la. Portugal precisa de ultrapassar o trauma dos seus números e dos seus séculos. O problema não é o 25, nem o 5, nem a glória, nem a tragédia, mas sim a nossa incapacidade de enfrentar a totalidade do nosso legado com sobriedade e orgulho.
O silêncio sobre a nossa fundação e o desinteresse pela monumentalidade do nosso passado é um luxo que a identidade de um país não pode pagar. Lisboa não celebra 25 de Outubro de 1147? É a prova de que ainda não ultrapassámos o medo de sermos quem somos.
Portugal foi o que foi, e só honrando esse facto poderemos ser o que devemos ser. Honrar a História é um ato de maturidade, não de ideologia.