Como se faz política em Oeiras quando a alternativa parece um deserto? Há décadas que o concelho é apresentado como um caso de sucesso de modernidade, visão e gestão urbana. Mas, para muitos oeirenses, esse sucesso tem um rosto. Chama-se Isaltino Morais.
Há poucos sobreviventes políticos como ele. Oriundo de origens humildes, que nunca deixou de reivindicar, moldou o concelho à sua imagem enquanto atravessava polémicas que teriam encerrado a carreira da maioria dos dirigentes políticos. Em Oeiras, porém, a obra feita revelou-se uma extraordinária amnistia eleitoral.
É precisamente aqui que a oposição continua a falhar. Nunca percebeu que vencer em Oeiras não depende de candidatos mediáticos nem de currículos irrepreensíveis. Em Oeiras, as eleições ganham-se menos pelo currículo do que pela proximidade. A política continua a fazer-se no terreno.
Isaltino percebeu isso antes de todos. Construiu o seu poder no aperto de mão, estando tanto na Câmara como no restaurante da esquina, na igreja, nas coletividades, nas festas populares ou junto das associações que dão vida ao concelho. Instalou-se entre muitos munícipes a convicção de que basta um telefonema porque há sempre alguém que resolve.
A proximidade é uma virtude da democracia. Mas deixa de o ser quando substitui o escrutínio. É aí que começa o problema de Oeiras.
Blindado por um capital político acumulado ao longo de décadas, o executivo governa com uma margem de tolerância de que poucos autarcas dispõem. Mantém o IMI na taxa máxima, promove investimentos de dimensão discutível e rompe unilateralmente com os SIMAS, decisão cujos custos poderão refletir-se diretamente na fatura da água dos munícipes. A crítica existe. O que deixou de existir foi a capacidade de produzir consequências políticas.
Também por isso, a narrativa da obra feita acaba frequentemente por ocultar aquilo que continua por fazer. O Centro de Congressos permanece uma promessa adiada. Persistem bolsas de carência económica em bairros sociais. E muitos problemas quotidianos sobrevivem sem o mesmo destaque que os grandes anúncios.
O paradoxo torna-se ainda mais evidente na mobilidade. Oeiras alberga dois dos maiores polos empresariais e tecnológicos do país, o Taguspark e o Lagoas Park, mas continua a oferecer uma rede de transportes públicos insuficiente e ligações internas entre freguesias que não acompanham a ambição do concelho.
O caso da Ribeira da Lage ilustra bem essa realidade. Os moradores reclamam há anos por melhores transportes, mas continua por concretizar a renegociação dos percursos com a TML. Entretanto, durante as festas de Porto Salvo, a solução encontrada passa pela contratação temporária de tuk-tuks privados para assegurar a mobilidade dos visitantes. O improviso substitui o planeamento.
Também a habitação social merece uma leitura menos triunfalista. Grande parte da construção recente resulta de verbas do PRR negociadas e estruturadas pelo anterior Governo. Esse facto raramente ocupa lugar na narrativa oficial, concentrando-se o mérito político quase exclusivamente no executivo municipal.
A mesma lógica prolonga-se nas freguesias. Em vários órgãos autárquicos liderados pelo INOV, propostas apresentadas pela oposição encontram demasiadas vezes uma rejeição automática. Não é apenas uma questão de maioria. É uma forma de empobrecer o pluralismo democrático.
Talvez por isso surpreenda que um dos concelhos mais modernos e inovadores do país continue sem permitir a gravação e transmissão das assembleias de freguesia. A transparência não deveria depender da boa vontade de quem governa. Deveria ser um princípio elementar da vida democrática.
O maior erro da oposição tem sido acreditar que esta realidade se combate através de conferências de imprensa ou comunicados. Não se combate. Nenhuma máquina política assente na proximidade se derrota à distância.
A alternativa só começará a existir quando alguém disputar o mesmo espaço humano que Isaltino conquistou ao longo de décadas. Quando a crítica deixar de ser apenas institucional e voltar a ser também territorial. Quando a política regressar à rua.
Porque a democracia não enfraquece apenas quando perde transparência. Enfraquece, sobretudo, quando os cidadãos deixam de acreditar que o poder pode, verdadeiramente, mudar de mãos.