Há cerca de vinte anos tomei uma decisão que contrariava profundamente aquilo que era esperado de mim. Decidi deixar uma instituição onde vivi vários anos, onde partilhei quartos, formação, noites sem dormir, e onde construí amizades para a vida. Para alguns membros da instituição, aquilo não foi uma decisão pessoal, foi uma traição, e por tal deixaram simplesmente de me falar.

Anos mais tarde, alguns disseram-me em privado que se soubessem então o que sabem hoje e tivessem tido a coragem que tive, teriam feito o mesmo. Na altura, não pensei muito sobre este paradoxo, mas hoje penso.

Talvez porque aquela experiência, ocorrida muito antes das redes sociais, da minha presença na televisão e na política, contenha uma pequena parte da resposta para compreender o tempo em que vivemos. Quando alguém se afasta daquilo que o grupo considera aceitável, a divergência pode rapidamente deixar de ser uma diferença de opinião e transformar-se numa questão de pertença.

A sociedade mudou, mas o mecanismo humano talvez não tenha mudado assim tanto. Hoje, por motivos profissionais e políticos, exprimo publicamente aquilo que penso. Participo em debates com pessoas de espectros ideológicos muito diferentes do meu. E com isto aprendi uma coisa, é que há pessoas que não me conhecem e que, a partir de alguns minutos de debate ou de um texto, sentem que já sabem quem sou. Algumas discordam, algumas insultam, outras preferem manter distância por causa das opiniões que me ouviram defender.

Há também o fenómeno inverso, as pessoas que me dizem em privado que concordam, mas que preferem não o dizer publicamente. Não sei quantas serão, nem tenho como saber. Mas a existência desse silêncio levanta uma pergunta incómoda. Quantas vezes confundimos consenso com convicção, quando aquilo que temos é apenas silêncio?

A liberdade de expressão é normalmente discutida como uma questão jurídica, ou seja, posso ou não posso dizer “isto”? Mas existe uma dimensão menos evidente, que é o que acontece a uma pessoa quando diz o que pensa.

Podemos manter intacta a liberdade formal de expressão e, simultaneamente, construir um ambiente social em que o custo de a exercer se torna cada vez mais caro. O preço pode ser um rótulo, um insulto, o afastamento, a exclusão de um grupo ou simplesmente a percepção de que é mais prudente ficar calado.

A censura antiga proibia as palavras, a nova limita-se a torná-las caras, e o silêncio faz o resto.

Ou seja, não estamos apenas a perder a capacidade de discordar, mas estamos também a perder a capacidade de ouvir exactamente aquilo de que discordamos.

Em vez de perguntarmos “o que pensas, ou defendes?”, perguntamos cada vez mais “o que és?”. E depois de encontrarmos a etiqueta que se adequa, julgamos o argumento através dela.

Se alguém diz que é contra a imigração ilegal, pode rapidamente deixar de ser uma pessoa que defende determinada política migratória para passar a ser “anti-imigração”, depois “xenófoba” e, finalmente, “desumana”. E entretanto, o argumento original já desapareceu pelo caminho.

Compreender não significa concordar. Também eu fui emigrante durante mais de uma década. Sei o que é deixar o país, procurar melhores condições de vida, estar longe da família e ter de começar de novo várias vezes. Compreendo bem a vontade de quem procura uma vida melhor, mas isso não me impede de defender regras de imigração, controlo de fronteiras ou consequências para quem entra ou permanece ilegalmente.

Discutir essas políticas deveria implicar discutir as suas consequências económicas, sociais, jurídicas, humanas, securitárias, educacionais e tantas outras. Não deveria implicar decidir se quem as defende é uma pessoa com ou sem humanidade.

O mesmo acontece com outros temas. A discussão sobre Israel e Palestina é talvez um dos exemplos mais evidentes de como questões complexas podem ser comprimidas numa escolha tribal. É possível defender os direitos dos palestinianos sem defender o Hamas. E podemos defender o direito de Israel existir e a sua segurança sem ignorar o sofrimento dos palestinianos. Assim como é possível reconhecer a história da região e, simultaneamente, criticar decisões concretas de um governo.

Mas parece existir uma necessidade crescente de escolher um lado da barricada. E, depois de escolhido, a posição do interlocutor deixa de ser discutida, e passa a ser julgada. Quem defende determinadas posições de Israel pode ser rapidamente rotulado de genocida, e quem critica Israel pode ser acusado de anti-semitismo. Por vezes, os rótulos tornam-se mais importantes do que aquilo que a pessoa efectivamente disse.

O mesmo sucede com a própria linguagem. Podemos discutir legitimamente a utilização de determinadas palavras, o seu contexto, a sua história e o seu potencial ofensivo. Mas uma sociedade intelectualmente saudável deveria conseguir distinguir uma descrição de um insulto, uma crítica de um ataque, uma generalização de uma acusação e até distinguir uma palavra utilizada num determinado contexto daquilo que ela poderia significar noutro.

Quando uma palavra se transforma automaticamente numa prova do carácter de quem a pronunciou, deixamos de discutir linguagem e começamos a julgar pessoas. Cor, raça, etnia, religião tornaram-se terreno tão perigoso que, muitas vezes, preferimos simplesmente não lhes tocar. Mas o significado de uma palavra depende do contexto, e o contexto não pode ser substituído por uma lista automática de palavras aceitáveis e proibidas, lista essa definida por sabe-se lá quem.

É aqui que entra a tribalização.

A política deixou de ser apenas um conjunto de ideias e tornou-se, para muitos, uma identidade. Já não basta discordar da esquerda ou da direita, agora é preciso pertencer a uma delas. E, dentro de cada uma, existem ainda subtribos. Na esquerda, posições diferentes podem determinar quem é suficientemente progressista. Na direita acontece o mesmo, e até entre liberais, onde seria de esperar maior tolerância à divergência, nem sempre é possível ser simplesmente liberal. É preciso ser progressista, conservador, libertário, liberal clássico ou outra coisa qualquer. O problema já não é apenas a polarização entre campos, é a tribalização dentro dos próprios campos. Transformámos ideologias em clubes, e quando a política se transforma em clube, já não basta concordar com algumas ideias, é preciso pertencer.

Deixámos de perguntar se alguém tem razão para perguntar apenas se é dos nossos.

Já não basta que uma posição seja coerente, é preciso que seja coerente com aquilo que a nossa tribo considera aceitável.

Uma pessoa pode defender a liberdade económica e ter posições conservadoras numa questão social. Pode ser progressista num tema e conservadora noutro. Pode concordar com a esquerda numa matéria e com a direita noutra. Pode ser liberal e discordar de outros liberais. Isso não é necessariamente incoerência. Pode ser simplesmente pensamento independente.

Talvez a maior liberdade política seja precisamente podermos não caber inteiramente em nenhuma das caixas que criámos para nos classificarmos. O problema é que, quando a identidade passa a valer mais do que a ideia, discordar deixa de ser um exercício intelectual e passa a ser uma ameaça à tribo. E a tribo precisa então de defender-se.

A pessoa diz uma coisa e nós ouvimos outra. Atribuímos-lhe uma intenção e colocamo-la numa categoria. Construímos uma versão mais extrema daquilo que disse e atacamos essa versão. A pessoa diz “sou contra a imigração ilegal” e ouvimos “é contra a imigração”. Quando refere “defendo Israel”, ouvimos “ignora os palestinianos”. Se diz “sou liberal”, perguntamos imediatamente “mas que tipo de liberal?”.

Já não procuramos compreender a posição. Procuramos descobrir em que caixa devemos colocar quem a exprime.

Isto não significa que devamos aceitar todas as ideias, nem que toda a crítica seja intolerância. Uma sociedade livre precisa de poder condenar ideias racistas, anti-semitas, xenófobas, autoritárias ou violentas. Deve poder combater ideias que considera perigosas. E ao mesmo tempo, tem de aplicar consequências para comportamentos que ultrapassem os limites da lei ou da convivência social. E é justo reconhecê-lo, sermos criticados, contestados ou simplesmente não aplaudidos não é sermos silenciados, é a liberdade dos outros em responder à nossa. Mas condenar uma ideia não é o mesmo que desumanizar quem a defende. Contestá-la não é o mesmo que tentar silenciar quem a exprime.

E aqui está talvez a parte mais difícil da tolerância, aceitar que uma pessoa pode defender uma ideia que consideramos errada, injusta ou até profundamente ofensiva e continuar a ser alguém com quem podemos discutir ideias.

Não temos de concordar. Temos de conseguir ouvir.

E esta exigência não deve ser aplicada apenas aos outros. Seria demasiado fácil escrever um texto sobre a intolerância alheia e concluir que os intolerantes são sempre os outros. Também eu tenho posições sobre as quais tenho convicções fortes. Também eu posso cair na tentação de simplificar o argumento de quem está do outro lado.

A liberdade de expressão é muito fácil de defender quando ouvimos aquilo de que gostamos. A verdadeira prova começa quando ouvimos aquilo de que discordamos. Talvez por isso seja tão importante preservar também o direito de mudar de opinião. Uma sociedade que transforma a mudança de posição numa humilhação incentiva as pessoas a defenderem eternamente aquilo que já não pensam. Se cada opinião se transforma numa identidade, mudar de opinião passa a ser entendido como trair o grupo. Se não podemos mudar de opinião publicamente, não conseguimos corrigir erros publicamente. E uma sociedade em que ninguém pode admitir que estava errado é uma sociedade que perde a capacidade de aprender.

Mas mudar de opinião deveria ser uma demonstração de liberdade, não uma confissão de fraqueza.

Há vinte anos, alguns condenaram-me, mas acabaram por me dizer, em privado, que gostariam de ter saído também. Hoje, algumas pessoas fazem o mesmo, concordam em privado com aquilo que não se sentem confortáveis em defender em público. Talvez devêssemos perguntar porquê.

Uma sociedade aberta não é aquela onde todos pensam da mesma maneira. É aquela onde pessoas que pensam de maneiras diferentes conseguem continuar a reconhecer-se umas às outras como pessoas.

Talvez seja isso que estamos a perder. Não a liberdade formal de falar, mas a capacidade de conviver com aquilo que é dito.

E talvez a pergunta mais incómoda seja esta: que espécie de liberdade temos quando somos livres para falar, mas aprendemos a ter medo do preço de sermos ouvidos?

Gostaria de viver numa sociedade em que isso não exigisse coragem. Gostaria que fosse, simplesmente, normal.