Há profissões em que deixamos de ser alunos quando começamos a trabalhar. Ser professor não é uma delas. Um professor é aluno todos os dias.

Sempre foi assim. A essência da profissão nunca esteve apenas em transmitir conhecimento, mas em despertar curiosidade, provocar pensamento, criar ambição e fazer alguém querer saber mais. A diferença é que hoje essa capacidade de aprendizagem e reinvenção tem de acontecer a uma velocidade muito maior.

O modelo com que comecei a dar aulas, em 2007, e até aquele que utilizava há apenas dez anos está, em grande parte, esgotado. Não porque estivesse errado, mas porque o mundo mudou. Os alunos mudaram. A tecnologia mudou. A forma como consumimos informação mudou. E a Inteligência Artificial acelerou tudo isto.

Hoje, um estudante consegue obter em segundos explicações, resumos, exemplos, código, exercícios e respostas. Por isso, o professor já não pode limitar o seu valor à transmissão de conteúdos. Tem de fazer algo muito mais exigente: liderar a aprendizagem.

Tem de ser tutor, provocador, orientador e contador de histórias. Transformar uma teoria num problema real, um conceito num dilema, uma aula num espaço onde o aluno é obrigado a pensar, escolher, argumentar e justificar.

“Porquê?”

“E se fosse ao contrário?”

“Consegues defender a posição com que não concordas?”

Talvez estas perguntas valham hoje tanto como muitos slides. Numa era de Inteligência Artificial, saber fazer boas perguntas torna-se cada vez mais importante do que simplesmente saber encontrar respostas.

Mas esta transformação obriga-nos também, enquanto professores, a aumentar a exigência connosco próprios. Temos de aprender Inteligência Artificial, experimentar novas ferramentas, compreender melhor as novas gerações, testar metodologias, errar e melhorar na aula seguinte.

Não podemos exigir aos alunos aprendizagem contínua se nós próprios deixarmos de aprender.

E há uma dimensão ainda mais importante que não podemos perder. A sala de aula não é apenas um espaço de aprendizagem científica. É também um pequeno estágio para a vida em sociedade.

É ali que se aprende a chegar a horas, respeitar quem fala, ouvir antes de responder, discordar sem atacar, argumentar sem gritar e perceber que alguém pode pensar de forma diferente sem ser nosso inimigo.

Num tempo em que todos parecem ter opinião sobre tudo e cada vez menos disponibilidade para ouvir o outro, esta talvez seja uma das maiores responsabilidades da escola e da universidade.

E exige também recuperar o respeito pelo professor. Não um respeito baseado no medo ou numa autoridade distante, mas no reconhecimento do papel de quem conduz aquele espaço, estabelece exigência e cria condições para aprender.

Porque o professor tem uma espécie de varinha mágica.

Pode criar uma discussão onde antes existia silêncio. Pode transformar uma dúvida em curiosidade. Pode fazer um aluno descobrir uma capacidade que desconhecia. Pode colocar opiniões opostas frente a frente e ensinar que mudar de posição perante um argumento melhor não é perder.

É aprender.

Tudo isto vai muito para além do conteúdo científico.

E envolver não significa facilitar. Motivar não é baixar a fasquia. Pelo contrário. Um grande professor consegue fazer um aluno querer ultrapassar uma fasquia que inicialmente julgava impossível.

Talvez seja esta a revolução pedagógica de que precisamos.

Não substituir professores por tecnologia.

Mas usar a tecnologia para tornar ainda mais forte aquilo que sempre distinguiu um grande professor: ensinar, desafiar, inspirar, criar ambições e preparar pessoas para viver na sociedade e em sociedade.

Porque uma sociedade que quer melhores cidadãos tem de começar por prestigiar quem os ajuda a formar.

E, para conseguir ensinar amanhã, o professor terá de continuar a aprender hoje.

Porque amanhã, inevitavelmente, será mais um dia de aulas diferentes.