Ao longo da História, a resposta à pergunta “onde reside o poder?” foi mudando. Durante séculos, o poder esteve associado ao controlo do território, das fronteiras e dos recursos naturais. A Revolução Industrial deslocou-o para a capacidade produtiva e para a superioridade económica. Nas últimas décadas, a revolução digital levou muitos a defender que os dados constituem o principal ativo estratégico das sociedades contemporâneas.

Mas essa resposta tornou-se insuficiente.

Os dados são indispensáveis. Tal como a energia, as infraestruturas críticas ou a inteligência artificial. Todos representam capacidades estratégicas fundamentais. Contudo, nenhum destes elementos produz poder por si só. Os recursos criam potencial, mas o poder resulta da capacidade de transformar esse potencial em decisões eficazes e essas decisões em ação coordenada.

É precisamente esta a grande transformação do século XXI.

A verdadeira transformação do nosso tempo não é apenas tecnológica. É muito mais profunda: consiste na transformação da própria natureza do poder. O poder já não reside apenas naquilo que possuímos. Reside, sobretudo, naquilo que conseguimos integrar.

Durante décadas organizámos o Estado, a economia e as políticas públicas segundo uma lógica setorial. Energia, saúde, transportes, defesa, telecomunicações ou finanças eram tratados como domínios relativamente autónomos. Hoje, essa realidade deixou de existir. Vivemos num contexto profundamente interdependente, em que cada sistema depende do funcionamento de vários outros. A sociedade passou a operar como um verdadeiro sistema de sistemas.

Quando tudo está ligado, a natureza do risco também se altera. Uma perturbação localizada deixa de produzir consequências limitadas e transforma-se rapidamente numa crise sistémica. O apagão ibérico demonstrou como uma falha energética pode comprometer comunicações, mobilidade, serviços públicos e atividade económica. A guerra na Ucrânia revelou um espaço operacional onde dados, satélites, drones, inteligência artificial, infraestruturas críticas, energia e cadeias logísticas deixaram de constituir domínios separados para integrarem uma única realidade estratégica.

O risco deixou de ser linear. Tornou-se sistémico.

Perante este contexto, seria expectável que a resposta passasse por produzir mais informação. No entanto, é precisamente aqui que encontramos o grande paradoxo das democracias contemporâneas. Nunca produzimos tantos dados, nunca desenvolvemos capacidades tecnológicas tão sofisticadas e nunca dispusemos de tantos instrumentos para monitorizar a realidade. Apesar disso, nunca foi tão difícil decidir.

O problema já não é a escassez de informação. É a sua fragmentação. É o excesso de dados sem integração, sem contexto e sem capacidade de produzir decisões coerentes. O verdadeiro défice do século XXI não é, por isso, um défice de informação. É, antes sim, um défice de integração decisória.

A informação, por si só, não produz poder. Produz ruído. O poder nasce quando somos capazes de captar sinais relevantes, integrar informação proveniente de múltiplas fontes, interpretar o seu significado, estabelecer prioridades, decidir em tempo útil e transformar a decisão em ação. É nesta cadeia que se mede hoje a verdadeira capacidade estratégica de um Estado, de uma organização ou de uma sociedade.

A vantagem estratégica deixou de ser apenas possuir ativos. Passou a ser integrá-los. Porque o poder já não resulta da acumulação de recursos, mas da capacidade de os articular em sistemas capazes de produzir decisão e ação.

É igualmente por essa razão que a discussão sobre inteligência artificial, cibersegurança ou dados não pode ser reduzida a uma discussão tecnológica. A questão central já não é tecnológica, é organizacional, institucional e política. A tecnologia amplia capacidades, mas não define prioridades. Os algoritmos processam informação, mas não produzem legitimidade. A decisão continua a depender da qualidade das instituições e da capacidade da governação para coordenar sistemas cada vez mais complexos.

Esta transformação obriga-nos também a repensar a própria ideia de soberania.

Durante muito tempo, a soberania foi entendida como a capacidade de controlar território, fronteiras ou recursos estratégicos. Esses elementos permanecem fundamentais, mas deixaram de ser suficientes. Num mundo profundamente interdependente, a soberania já não se mede apenas por aquilo que um Estado possui. Mede-se, sobretudo, pela sua capacidade de compreender sistemas complexos, integrar informação, coordenar instituições, decidir sob incerteza e garantir continuidade de ação quando os sistemas entram sob pressão.

A soberania deixa, assim, de ser predominantemente um conceito de controlo para se afirmar como um conceito de capacidade: capacidade para compreender, integrar, coordenar, decidir e executar.

É esta capacidade que determina a verdadeira autonomia estratégica de um Estado. Porque um Estado verdadeiramente soberano não é aquele que controla tudo. É aquele que consegue manter direção estratégica, liberdade de decisão e continuidade de ação quando os sistemas estão sob pressão.

Esta é também uma das questões centrais para a Europa. O continente não enfrenta um défice de conhecimento, de talento ou de inovação. Pelo contrário, dispõe de universidades, centros de investigação, empresas tecnológicas e capacidades industriais de excelência. O desafio europeu reside frequentemente na dificuldade em transformar essa excelência dispersa numa capacidade estratégica integrada. A competição geopolítica das próximas décadas dificilmente será decidida apenas pela liderança tecnológica, será decidida pela capacidade de organizar essa tecnologia numa arquitetura coerente de governação e decisão.

A batalha estratégica da próxima década não será apenas pela inovação. Será pela integração. A competição geopolítica já não premiará apenas quem desenvolve melhores tecnologias, mas quem consegue integrá-las numa arquitetura coerente de governação e decisão.

No final, tudo converge numa única palavra: confiança. Num mundo de sistemas complexos, a confiança deixou de ser apenas um valor democrático. Passou a ser uma capacidade estratégica. É ela que permite coordenar instituições, integrar sistemas, acelerar decisões e garantir que a ação coletiva permanece legítima. Sem confiança não existe legitimidade, sem legitimidade não existe capacidade de decisão duradoura, e sem capacidade de decisão não existe poder.

A arquitetura do poder no século XXI exige, por isso, um equilíbrio particularmente exigente: utilizar dados sem comprometer direitos, acelerar decisões sem fragilizar a democracia e reforçar a capacidade de ação sem abdicar da responsabilidade.

O poder continua a ser a capacidade de moldar a realidade. O que mudou foi a forma como essa capacidade se constrói. No século XXI, o verdadeiro poder já não pertence a quem controla mais recursos ou acumula mais dados. Pertence a quem consegue integrar sistemas complexos, transformar informação em conhecimento, decidir com legitimidade sob profunda incerteza e transformar decisão em ação.

São estes, em última análise, os três verbos da nova arquitetura do poder: integrar, decidir e agir.

Ana Miguel dos Santos, Head of Defense, Security & Justice at Deloitte

Este artigo foi publicado no âmbito do evento Data with Purpose Summit, uma iniciativa da NOVA IMS