Como seria de prever, a administração Trump tem-nos levado a viver numa constante roleta-russa…sem trocadilho intencional! Entre a imposição de tarifas comerciais, a suspensão da participação dos Estados Unidos na Organização Mundial de Saúde (OMS) e no Conselho de Direitos Humanos da ONU, o possível fim do Departamento de Educação, e mais recentemente, a rejeição da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, a (des)ordem de acontecimentos do que parece ser um “jogo perigoso e imprevisível” não tem fim.

No campo da assistência externa, à intenção de encerramento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), seguiu-se um corte profundo no financiamento destinado às Nações Unidas, no que Trump diz fazer parte de uma revisão necessária ao cumprimento da sua política “America First”.

Previsto na Carta das Nações Unidas, todos os seus 193 membros devem contribuir para o orçamento da mesma, com valores que variam com base numa fórmula que tem em conta diversos fatores. Desde a sua criação, em 1945, os Estados Unidos têm sido o maior doador das Nações Unidas. Em 2023, o contributo norte-americano de quase 13 mil milhões de dólares, representou praticamente um quarto do financiamento do orçamento coletivo da organização.

Os EUA têm tido, assim, um papel fundamental na cooperação para o desenvolvimento e ajuda humanitária, pelo que esta mudança abrupta – mas não surpreendente – vem agora provocar consequências alarmantes a curto, médio e longo prazo.

Em resposta à decisão do Presidente norte-americano, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, destacou numa conferência de imprensa no final de fevereiro como estes cortes vão contribuir fortemente para um mundo “menos saudável, menos seguro e menos próspero”. Guterres disse mesmo que para lá do trabalho essencial de apoio ao desenvolvimento, as agências das Nações Unidas são decisivas no combate ao terrorismo, ao tráfico de droga e que, verdadeiramente, salvam vidas.

Questiono-me se o Governo norte-americano entende que desinvestir no desenvolvimento, no apoio humanitário, na cooperação internacional, é desinvestir na paz, na estabilidade e na segurança mundial? Ou será que a sua agenda política e ideia de sucesso próprio (“America first”) são valores que falam muito mais alto?

Esta visão, e em concreto, os cortes nos fundos para ajuda internacional, vêm mostrar como tudo é tão frágil e como uma decisão pode – e tem – um impacto imenso que poderá deitar por terra o progresso alcançado. O apoio para a cooperação internacional não existe porque fica bem no papel. Este esforço multilateral existe e é necessário porque, por tantas e diversas razões, há Estados que não têm a capacidade, isto é, condições de governança, para garantir o bem-estar das suas populações, como explicou a diretora executiva do Fundo das Nações Unidas para a População, Mónica Ferro, à CNN Portugal. É por isso mesmo que estes apoios são canalizados para situações vulneráveis e de emergência humanitária, nomeadamente como consequência de conflitos ou resultado de catástrofes naturais tantas vezes provocadas pelas alterações climáticas, para as quais, aliás, a população afetada contribuiu tão pouco. Já no próximo mês, a ONU será obrigada a suspender a ajuda alimentar a cerca de dois milhões de pessoas na África Ocidental por falta de fundos.

Vivemos hoje mais interligados que nunca, apesar de ainda assim, tão distantes uns dos outros. Tudo acontece em cadeia nesta que é uma “aldeia global”. Nada nos é alheio: nem as decisões de Trump, nem as cerca de 17 milhões de mulheres grávidas que ficam sem acesso a cuidados de saúde, nem uma possível subida global da tuberculose de 28 a 32%, nem o milhão de crianças subnutridas sem assistência alimentar. E não sou eu quem o diz, é Nicholas Enrich, o administrador interino da USAID, agora suspenso disciplinarmente pelo Governo norte-americano.

Tenho recordado a célebre citação de Martin Niemöller, pastor luterano alemão, proferida no pós-Segunda Guerra Mundial: “Primeiro vieram buscar os comunistas e eu não disse nada pois não era comunista. Depois vieram buscar os socialistas e eu não disse nada pois não era socialista. Depois vieram buscar os sindicalistas e eu não disse nada pois não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus e eu não disse nada pois não era judeu. Finalmente, vieram buscar-me a mim – e já não havia ninguém para falar.”.

Se hoje nada dissermos sobre o que se passa e nos declararmos indiferentes, justificando que o Governo norte-americano é soberano e está apenas a seguir a sua agenda, talvez um dia não haja ninguém para falar por nós.

O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.